O Dogma na Fé Cristã!
1. Introdução ao d]ogma.
A palavra d]ogma (dogma) tem o significado de lei, ordem, decisão e/ou decreto[1] e é exatamente com esses significados que o encontramos na vida da Igreja primitiva e que permeia o pensamento cristão até os dias atuais. Claro que essa é uma afirmação redundante, todavia ela se faz necessária para descrever seu papel na história eclesiástica e na história dos seres humanos.
A sua natureza e função surgiu pela necessidade do ser humano em buscar seu Novo Ser, ou seja, na sua análise do entendimento da sua condição existencial o ser humano buscou saber se havia uma forma de reverter ou superar seu estado existencial para uma nova realidade. Biblicamente encontramos um sentido pelo qual o ser humano interpela sua existência: Jesus Cristo. E é nesse ponto que o dogma entra em questão, pois é preciso criar argumentos sólidos na afirmação de que Cristo pode reverter à situação existencial dos seres humanos.
O problema é de ordem cristológico, pois ao voltarmos nossos olhos para a história, “de forma antecipatória, o problema cristológico apareceu nas expectativas proféticas e apocalípticas associadas ao Messias ou ao Filho do Homem”[2]. A elaboração cristológica se deu na necessidade dos evangelistas em atribuir símbolos a Jesus, “a quem chamaram de ‘Cristo’”[3] e dentre os símbolos atribuídos, a associação com a palavra Logos foi a mais discutida, pois ela fazia parte de um contexto filosófico no qual foi desenvolvido todo o processo dogmático da cristologia, pois “este perigo, sempre presente no cristianismo, foi uma das razões que levaram a igreja primitiva a interpretar os símbolos cristológicos segundo os termos conceituais que lhe foram proporcionados pela filosofia grega”[4].
Neste trabalho, buscaremos dentro de alguns tópicos, desenvolver o caminho traçado pelo dogma, do seu surgimento à sua função de fundamento da fé. O primeiro ponto a ser apresentado é o surgimento e a necessidade do dogma na história cristã. Neste ponto serão abordados os conflitos que a igreja cristã primitiva enfrentou contra os constantes ataques filosóficos gregos, perseguições por parte do imperialismo romano e os pensamentos errôneos elaborados a respeito da nova comunidade que surgia e sua pregação sobre o Cristo Ressurreto, onde a elaboração do dogma foi fundamental para a “sobrevivência” do cristianismo no mundo. O segundo ponto, e acredito ser o mais polêmico está na discussão sobre o dogma trinitário e suas implicações, cujo estudo ainda hoje traça grandes divergências a cerca da unicidade de Deus na pessoa de Pai, Filho e Espírito Santo. E o terceiro e último ponto explanaremos a respeito do dogma trinitário como o fundador da fé cristã, onde temos a iniciação pelo Batismo na confissão da ordenança de Jesus Cristo baseado no evangelho de Mateus 28:19.
2. O surgimento e a necessidade do d]ogma na história cristã.
Os primeiros séculos da era cristã mostram na história do cristianismo um processo contínuo de tradução das fontes hebraicas com o objetivo de oferecer ao mundo uma compreensão cada vez mais adequada de seu conteúdo.
Este processo se teria iniciado com os evangelistas, cujas interpretações doutrinárias se faziam conforme as categorias da Lei e os Profetas, dentro da tradição messiânica de Israel. A partir daí se daria o encontro da cultura clássica com o Cristianismo em proporções sempre mais amplas.
No século II A.D., a rápida expansão do Cristianismo, leva as elites intelectuais do mundo greco-romano, postas em contacto mais direto com a doutrina cristã, a lhe oporem uma primeira reação. Nesta época o Cristianismo, considerado a filosofia dos bárbaros, é severamente julgado pela mentalidade pagã com as categorias da cultura clássica como: canibalismo, ateísmo, subversão política, pelas quais os primeiros Pais da Igreja procuraram responder apologeticamente[5].
Entre os pensadores cristãos se percebe duas orientações opostas. Uma representada por Justino e Atenágoras, que procuram absorver a tradição grega na doutrina cristã, e a outra, de feições claramente anti-helênicas, defendida por Taciano e Tertuliano, que denunciam e condenam a helenização do cristianismo. Tertuliano, em particular, separa razão e fé, e repete a idéia de um paralelo entre cristianismo e helenismo em termos filosóficos[6].
No século III A.D. surge a necessidade de maior adaptação das interpretações dos evangelhos ao povo de fala grega, principalmente nas suas camadas mais altas. Aí, então, com os trabalhos de Clemente e Orígenes, falar-se numa teologia cristã. Esta tarefa de tradução cada vez mais eficiente da doutrina de Cristo, exposta agora também às camadas mais altas e mais cultas do meio pagão, exige da parte de seus defensores um trabalho cada vez mais elaborado, de homens eruditos e comportamento ascético. Constrói-se então uma interpretação da Bíblia em nível mais elevado, para satisfazer um público exigente, da razão mais crítica. Surgem então os primeiros passos para a elaboração dos dogmas e doutrinas cristãs[7].
Clemente de Alexandria e Orígenes procuram se servirem da especulação filosófica para sustentar uma religião positiva fundada na revelação divina, alheia, em suas origens a uma investigação humana independente acerca da verdade. Em outros termos, o processo de assimilação da tradição clássica pelo cristianismo pôde desenvolver-se com maior elasticidade a partir do momento em que, no meio cristão, homens intelectualmente formados na cultura grega passaram a reconhecer a capacidade religiosa da defesa da fé, atitude claramente assumida no século III por Clemente e Orígenes, que procurara mostrar como a fé hebraica podia ser exposta em termos do pensamento grego e justificada racionalmente[8].
Com estes precedentes, o encontro do helenismo com o cristianismo em nível erudito adquire em Clemente e Orígenes uma importância da mais alta significação, uma tentativa clara de fundamentação filosófica das verdades da fé. Esta se consubstancia nos seus mistérios, opostos aos da religião pagã, inteiramente falsa, mas que já a partir do século IV A.D. por oferecerem uma relação mais pessoal com a divindade, passaram a ocupar no coração do homem helenístico o vazio deixado pela fé olímpica. Desenvolve-se então todo um trabalho de exegese da doutrina cristã, voltado para a discussão da autentica natureza divina, daquilo que lhe é próprio e nesta tarefa de fixar e fundamentar os princípios vitais do Cristianismo, de superar-lhe o aparente caráter mitológico, não basta elevar Cristo à dignidade apenas de mestre da humanidade, mas é preciso também cuidar para que orientações espúrias como o gnosticismo, o maniqueísmo e o mitraísmo não venham a comprometer a universalidade do kerygma cristão. Trabalha-se então em várias frentes, mas o maior problema é enfrentar o ideal de cultura grega como um todo e neste confronto solidificar a liderança espiritual da doutrina cristã. Deste encontro histórico o resultado será uma teologia cristã que não pode ocultar sua dívida com a erudição clássica. Para esta tarefa, entram em cena os padres capadócios na segunda metade do século IV A.D.
Com a cultura dos padres capadócios, a sabedoria clássica, pela retórica ou pelo pensamento filosófico, se conjuga com a sabedoria da sinagoga e é neste contexto que se constrói uma verdadeira literatura cristã, muitas vezes livremente alimentada na tradição grega.
Embora os capadócios ataquem o helenismo em suas debilidades (atitude que em São Gregório de Nisa, além de reforçar a importância do dogma, de distanciar-se de uma interpretação intelectualista, ressalta o valor dos costumes veneráveis – liturgia e mistérios) há o interesse de se fazer do helenismo um instrumento da fé[9].
Entre estes pensadores, São Gregório de Nisa, mostra-se à altura das maiores exigências da filosofia pedagógica grega. A partir daqui, o padre capadócio desenvolve uma teoria dos graus do caminho místico da theognosis. Por trás da idéia de salvação individual coloca-se a de um plano mais amplo de apocatástasis, tomada a Orígenes, que leva a uma restauração final da obra divina originária.
Assim, através do estudo do humanismo cristão em suas origens, viu-se necessário a sistematização dos dogmas sobre as verdades da fé, dando-lhe uma fundamentação teórica a partir da mensagem ligada a figura de Cristo exercida no confronto entre o cristianismo e o helenismo.
3. O d]ogma trinitário e suas implicações.
Em continuidade aos acontecimentos do IV século, ainda referente aos capadócios, um significativo conceito escolástico foi aprovado e determinante no pensamento teológico a cerca do dogma da doutrina da Trindade. Orígenes elaborou duas concepções para designar o Ser de Deus, ou seja, sua essência presente em três pessoas distintas, porém perfeitas. Falamos das expressões ousia e hypostaseis[10].
Essas foram concepções usadas no Oriente para falar a cerca da unicidade na Trindade. Todavia, ao se referir sobre o mesmo assunto no Ocidente, essas expressões sofreram pequenas modificações, pois para designar o mesmo sentido sobre a unicidade da Trindade, no lugar de ousia foi colocado à expressão substantia, e no lugar de hypostaseis, a expressão personae[11].
Robert W. Jenson explica de forma inconfundível essas expressões da seguinte maneira:
“Tanto ousia quanto hypostasis entraram na teologia procedentes da tradição filosófica. Nela foram usadas quase intercambi-avelmente para designar o que é – conforme a apreensão helênica, aquilo que é pela possessão de algum complexo específico de características permanentes. Por conseguinte, são usadas também para designar o ‘ser’ assim possuído, isto é, tanto este complexo de características quanto a estabilidade ao longo do tempo que a possessão das mesmas confere”[12].
As pequenas nuancem existentes nestes termos é que hypostasis foi direcionado para o que difere um indivíduo de outro, ou seja, suas particularidades e ousia foi utilizada para designar o ser que constitui este indivíduo. Daí a análise que distingue – para os capadócios – Pai, Filho e Espírito, ou seja, “são três indivíduos que partilham da Divindade, como Pedro, Paulo e barnabé são três indivíduos que partilham da humanidade”[13].
Para explicar a questão das três hypostasis, os capadócios conceituaram da seguinte maneira: a relação da identificação das hypostasis é feita pelas suas características individuais e a relação que uma tem com a outra, ou seja, “Deus é o Pai como a fonte da Divindade do Filho e do Espírito; Deus é o Filho como o recipiente da Divindade do Pai; e Deus é Espírito como o espírito da possessão da Divindade do Pai pelo Filho”[14].
Dessa maneira ficam essencialmente claro que “as relações (...) são a obediência e dependência históricas de Jesus em relação a seu Pai e a entrada de seu futuro” na vida do cristão[15]. Vemos uma relação horizontal no qual se mostra no conteúdo desta relação à vida de Deus. Essa vida é identificada por termos bíblicos através da história temporal evangélica por “Gerando”, “gerado” e “procedente”, todavia esses termos criaram certo conflito após o concílio de Niceno, pois levantou questões de origem metafísica pelo fato dos termos “gerando” e “procedente” entrarem em conflito com o pensamento filosófico grego. Há então a necessidade, segundo Jenson, e para a progressão do desenvolvimento da compreensão trinitária a substituição de hypostasis por identidade. Consequentemente, essa expressão abre margem para a inserção de atributos, pois identidade identifica algo, assim:
“O fato de que há três identidades em Deus significa que há três conjuntos distintos de nomes e descrições e cada um é suficiente para especificar de modo único, mas todos identificam a mesma realidade (...) As três identificações podem, quanto ao mais, ser realizadas independentemente ”[16].
Poder-se-ia especular sobre a existência, portanto, de não um Deus, mas de três deuses? Para essa questão, retornamos à expressão sobre o Ser de Deus, ou ao termo ousia.
Se dissermos que “Deus” é infinito, somente uma “vida que não conhece limite” poderia identificá-lo. Dessa forma quando identificamos “Deus” como “aquele que ressuscitou a Jesus” automaticamente estamos falando não de um ser único, mas três[17]. Essa é a maneira então pelos quais três indivíduos compartilham da mesa ousia de Deus, não constituindo por tanto três deuses, pois a ousia se transforma em um predicado para a ação divina na relação trinitária em direção a nós[18].
Toda essa tentativa da explicação do dogma trinitário aconteceu porque a doutrina veio “pronta” do Oriente para o Ocidente, por essa razão, não houve uma construção, mas sim, uma tentativa de explicação do pensamento Oriental para a aplicação desse pensamento na Igreja Ocidental.
4. O d]ogma trinitário como o fundador da fé cristã.
No evangelho de Mateus, no verso 19 do capítulo 28 encontramos uma citação e ordenança de Jesus Cristo, que diz: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Nesta frase, encontramos dois elementos muito importantes na comunidade primitiva que caracterizam o “início” da fé cristã: o batismo e a confissão trinitária.
O batismo significa a “incorporação na comunidade salvífica de Jesus Cristo; através dele Deus acrescenta novos membros à Igreja (...), a qual, por meio dele, cresce externa e visivelmente”[19]. O ato do batismo é uma forma visível de confissão de arrependimento, pelo qual, o ser humano através de sua fé em Cristo, professa diante dos homens o arrependimento dos seus pecados e sua conversão a uma nova vida, todavia para essa iniciação “em vista da função da autorização canônica dos sacramentos, a fixação bíblica de uma forma triúna para o Batismo deve ser considerada um dogma”[20]. A essa necessidade, Robert W. Jenson faz o seguinte acréscimo:
“A função da menção do nome de Deus na iniciação, no Batismo como em outras ocasiões, é de remeter o iniciando à nova realidade, de conceder um novo acesso a Deus. Por isso, na comunidade dos batizados, o nome divino pronunciado no Batismo é estabelecido como a forma particular da comunidade dirigir-se a Deus”[21].
Neste sentido, segue-se em decorrência do Batismo a pronunciação ou a invocação tripla de Deus.
João Calvino, se referindo ao mesmo dogma, produz o seguinte comentário a cerca da invocação triúna na fórmula batismal:
“Nem, de fato, resta duvida de que, ao dizer: ‘Batizai-vos em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo’ [Mt 28:19], Cristo haja, mediante esta solene injunção, desejado testificar que a perfeita luz da fé já [então] se manifestara, por isso que, na realidade, equivale isto exatamente a serem batizados em nome de um só e único Deus, que, em plena evidência, Se mostrou no Pai, no Filho e no Espírito. De onde se faz meridianamente claro que na essência de Deus residem três pessoas, nas quais, um único Deus se conhece”[22]
Essa fórmula batismal foi tão importante e predominante, que a ordenança de Jesus para batizar “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” deve ser considerado “o dogma fundador da fé” cristã[23].
5. Conclusão.
Dentro do estudo pelo qual desenvolvemos neste trabalho, pudemos ter uma rápida identificação do dogma na fé cristã. Há muitos outros assuntos que poderiam ter sido abordados aqui, todavia fica claro que foi de extrema importância à necessidade do dogma para a sobrevivência e para o exercício da fé na tentativa de buscar o caminho do encontro do ser humano com seu Novo Ser, como foi dito na introdução deste trabalho.
É fato que, todo o trabalho da dogmática na exploração de conceitos doutrinários, assim, “se estes conceitos são ou não adequados para a interpretação da mensagem cristã, segue sendo uma pergunta permanente na teologia”[24]. Conceitos como os da doutrina da Trindade, ainda estão abertos, pois “não é possível nem descartá-la, nem aceitá-la em sua forma tradicional. Ela deve permanecer aberta para que cumpra a sua função original – expressar em símbolos abrangentes a automanifestação da Vida Divina ao ser humano”[25].
Dessa forma, nos encontramos ainda hoje com a responsabilidade de nos esforçarmos para uma futura contribuição no desenvolvimento destes conceitos que ainda buscam de alguma forma, respostas ao mundo moderno.
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[1] RUSCONI,Carlo. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 135.
[2] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática, p. 426.
[3] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática, p. 426.
[4] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática, p. 426.
[5] GONZALES, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo. A Era dos Mártires, p.80-86.
[6] GONZALES, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo. A Era dos Mártires, p.86-94.
[7] GONZALES, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo. A Era dos Mártires, p.109-132.
[8] Ibid.
[9] GONZALES, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo. A Era dos Gigantes, p.133.
[10] BRAATEN, Carl E; JENSON, Robert W. Dogmática Cristã. Vol.1, p. 149.
[11] BRAATEN, Carl E; JENSON, Robert W. Dogmática Cristã. Vol.1, p. 150.
[12] Ibid.
[13] Ibid.
[14] BRAATEN, Carl E; JENSON, Robert W. Dogmática Cristã. Vol.1, p. 151.
[15] BRAATEN, Carl E; JENSON, Robert W. Dogmática Cristã. Vol.1, p. 152.
[16] BRAATEN, Carl E; JENSON, Robert W. Dogmática Cristã. Vol.1, p. 153.
[17] BRAATEN, Carl E; JENSON, Robert W. Dogmática Cristã. Vol.1, p. 154.
[18] BRAATEN, Carl E; JENSON, Robert W. Dogmática Cristã. Vol.1, p. 155.
[19] BAUER, Johannes B. Dicionário de Teologia Bíblica, p. 116.
[20] BRAATEN, Carl E; JENSON, Robert W. Dogmática Cristã. Vol.1, p. 112.
[21] BRAATEN, Carl E; JENSON, Robert W. Dogmática Cristã. Vol.1, p. 112.
[22] CALVINO, João. As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. Vol 1, p. 156-157.
[23] BRAATEN, Carl E; JENSON, Robert W. Dogmática Cristã. Vol.1, p. 113.
[24] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática, p. 426.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Egoísmo, a Virtude Maldita - Parte I
Egoísmo, a Virtude Maldita - Parte I
Autor: Ayn Rand
"I have come here to say that I do not recognized anyone’s right to one minute of my life… It had to be said. The world is perishing from an orgy of self-sacrificing". Ayn Rand, The Fountainhead
Para Ayn Rand, o significado atribuído ao egoísmo representa uma tergiversação intelectual devastadora, a qual é responsável pelo restrito desenvolvimento moral da humanidade. Abram o dicionário, recomenda ela. Eu abri o Aurélio no verbete egoísmo, e o que encontrei? O significado que Ayn Rand considerava um embuste, quase sempre carregado de tintas emocionais e ideológicas. Mas não é somente lá. Egoism OU egotism, no International Cambridge Dictionary of English, is the tendency to think only about yourself and consider yourself better and more important than other people, ou seja, a tendência a pensar somente em si mesmo e considerar você mesmo melhor e mais importante do que as outras pessoas (grifei em itálico os exageros contidos na definição). No primeiro dicionário, mais relevante para o nosso tema, o registro já equipara, como sinônimos, egoísmo e egotismo. No dicionário de que fala Ayn Rand, o significado não tem essa confusão e denotação, apenas registra que egoísmo é a preocupação com os nossos próprios interesses. Mas o nosso Aurélio dá, da primeira à última entrada do verbete, tão-somente denotações pejorativas ao egoísmo, ali visto como um vício moral, algo funesto e não recomendável. "Amor excessivo ao bem próprio, sem consideração aos interesses alheios". Novamente grifei os exageros. Afinal, não estarão certos os dicionários e errada Ayn Rand?
O que veremos abaixo é que ela demonstrou, em a Virtude do Egoísmo [1], exatamente o oposto. Sua demonstração se desenrola por toda a sua filosofia - o objetivismo. De fato, toda a sua vida e obra foram dedicadas a afirmar que o egoísmo é uma virtude, ao contrário que registra o senso comum.
Para melhor entender a sua preocupação com o egoísmo e nele reconhecer uma virtude, nada como demonstrá-lo pelo seu oposto, o altruísmo. Se olharmos o dicionário e procurarmos o significado de altruísmo, não encontraremos interpretações pejorativas. Altruísmo, no Aurélio, significa primeiro amor ao próximo; desprendimento, abnegação; doutrina que considera como fim da conduta humana o interesse do próximo - ama o próximo mais que a ti mesmo. Não há exageros, não há juízos morais negativos. Pelo contrário, o altruísmo é o próprio juiz moral com que se julgam todos os atos humanos e que no caso em questão tem um forte apelo religioso e bíblico.
O altruísta diz que a preocupação com os nossos próprios interesses (egoísmo) é nociva e que devemos renunciar (sacrificar-nos) aos nossos interesses em favor alheio. É precisamente contra esse elemento sacrificial que se insurge Ayn Rand, em outra passagem de sua obra:
"A relação entre razão e moralidade é recíproca. O homem que aceita o papel de um animal sacrificial não obterá a autoconfiança necessária para sustentar a validade de sua mente. O homem que duvida da validade de sua mente não alcançará a auto-estima necessária para sustentar o valor de sua pessoa e descobrir as premissas morais que tornam possível o valor do homem".
Assim, qualquer ação praticada para os outros é boa, e é má toda ação para nós mesmos. A ética do altruísmo afirma que o que vale (o que é moral) é a intenção de ajudar aos outros, servir ao "interesse público", ao "povo", de modo que a medida desse valor é o beneficiário da ação, e não a ação em si mesma. Por esse raciocínio, um ditador com as mãos sujas de sangue, mas munido da nobre intenção de servir ao seu povo, seria considerado moral.
Não há nesse exemplo a preocupação com o conteúdo da ação. Pela ética do altruísmo, o homem só é um ser moral quando é capaz de auto-sacrifício, de abandono do maior pelo menor, do melhor pelo pior. A renúncia ao auto-interesse e a concessão de si ao sofrimento, ou a uma resignada humildade, é vista como o único ato verdadeiramente moral.
Os altruístas costumam apresentar como prova a exceção, a emergência das situações humanas. Por exemplo, quem nunca ouviu as perguntas do tipo: o que você faria em um incêndio? Salvaria o seu próximo ou trataria de safar-se? Salvaria quem estivesse se afogando ou a tudo assistiria impassível? Para Ayn Rand, situações como essas são excepcionais, não são prova de nada, e nem põem à prova a moral humana. Não vivemos em um bote salva-vidas, assevera ela. Nossa moralidade permanente e constante não pode ser testada por situações de excepcional emergência. Ayn Rand ironiza os voluntários altruístas, abnegados e desprendidos, almas permanentemente dispostas a procurar náufragos nos sete mares para serem salvos por seu amor altruísta. Pela mesma razão ela alfineta os exércitos de voluntários.
Em suma, a moral atual não está no indivíduo, mas naquilo e naqueles em que ele se projetou - a sociedade; antes ainda ela habitava um centro divino. Esta sociedade é a beneficiária; esta é a ação moral exclusiva. Por esta ótica o indivíduo está totalmente ausente, a humanidade é por ela mal interpretada, e a natureza humana é vista como vil e má.
A questão da auto-estima também serve à prova de Ayn Rand de que o egoísmo é uma virtude. Toda a discussão atual da auto-estima está falseada por essa ética do altruísmo, porque a auto-estima somente pode se referir ao indivíduo - aquele que deveria ser o beneficiário do seu próprio interesse e assim conquistar o título de moral. O altruísmo é o contrário; é a antítese da auto-estima. Além disso, a auto-estima reconhecida apenas pelo altruísmo, ou pela negação do egoísmo, gerou sociedades modernas coletivistas e racistas.
Nestas últimas a auto-estima é automática, diz Ayn Rand. Ela é dada pela "raça", por determinação genética, pela magia tribal primitiva que prende o indivíduo em uma esfera de exceção autoglorificante. Daí, infere ela, a necessidade daquele que nada construiu querer se integrar no bando que artificiosamente lhe infunde uma sensação de poder, de segurança, de pertinência, que só pode gerar uma falsa auto-estima. Como a auto-estima só se pode referir ao indivíduo, assim como o orgulho só se pode referir a nós mesmos (não há orgulho pelos feitos dos outros; esse sentimento chama-se admiração, respeito, amor, nunca orgulho), o altruísmo coletivista é uma base falsa sobre a qual viceja o racismo. Não é por outro motivo que em sociedades que se auto-reverenciam como "morais" pelo apelo quase irresistível ao altruísmo se fortalecem todos os tipos de racismo. Elas são também coletivistas, e nelas o valor não repousa mais no indivíduo, mas na massa. Reciprocamente, o valor socialista máximo, a igualdade, já antecipa os esforços dos abnegados salvadores do mundo sempre em busca de quem igualar, alimentando, abrigando, vestindo, salvando e, finalmente, tiranizando, até aqueles que não pediram para serem salvos.
"Orgulhos" de raça, de bando, são manifestações e expressões de ódio disfarçado que se nutrem do sofrimento, do desprezo; são valores negativos de destruição, de supremacia violenta e, como tais, violentam o princípio fundamental do pensamento randiano, o indivíduo racional, cujo maior valor é a vida.
A pior conseqüência que uma sociedade erigida na base "ética" altruísta pode sofrer tem sido o Estado totalitário a partir do surgimento do coletivismo e do racismo. Ayn Rand adverte que contra o racismo somente se pode receitar o individualismo, o egoísmo virtuoso, antídoto certo que recupera a verdadeira auto-estima, condição prazerosa para a paz verdadeira dentro da sociedade e entre elas, algo que só se torna possível quando a razão é o norte humano, o único juiz a testar a nossa moralidade. Lutar contra o coletivismo é lutar contra as maiorias em favor das minorias, e não existe minoria menor do que um, o indivíduo. Ao contrário, segregar a sociedade por grupos, raças, ou bandos, somente engendra ódios destruidores. Cotas raciais são cotas certas de ódio, resgatáveis em um tempo líquido e certo dentro de uma sociedade. Como disse Ayn Rand:
"Como toda a forma de coletivismo, o racismo é uma procura pelo não-obtido. É uma procura pelo conhecimento automático - por uma avaliação automática da índole dos homens que desviam as responsabilidades de exercitar o julgamento racional ou moral - e, acima de tudo, uma procura por uma auto-estima automática (ou pseudo auto-estima)". (pg. 160; A Virtude do Egoísmo).
Não admira que o mundo hoje, eivado de irracionalismo, racismo, affirmative actions, cotas raciais, coletivismo, direitos sociais, produzidos pela aberração autodestruidora do altruísmo, esteja a sofrer como nunca.
Não admira que em um mundo como este, o homem seja considerado mau, que a natureza humana seja dita má e pervertida.
Não admira que, em um mundo como este, o egoísmo seja visto como imoral.
Hoje podemos descobrir que o homem só é vítima de outros homens porque abdicou de sua razão; abandonou ou renunciou à fonte da moral. Hoje sabemos que os homens e seus líderes foram ensinados a viver à custa da verdadeira razão de sua própria existência, isto é, o centro metafísico e psicológico do indivíduo, o ego. Os líderes intelectuais são os causadores da derrota moderna do homem e de uma ética destruidora e suicida.
"Vocês têm usado o medo como sua arma, e têm trazido morte aos homens, punindo-os por rejeitarem a sua moralidade. Nós lhes oferecemos a vida, como recompensa por aceitar a nossa". (Do discurso de John Galt, Atlas Shrugged).
Vossa moral altruísta é podre, diria John Galt se "vivo" estivesse, e como John Galt nos faz falta! Por isso, como na epígrafe, Ayn Rand denuncia qualquer auto-sacrifício como causa da degeneração da moral da humanidade moderna. [1]
Original de 1964; versão brasileira de 1991, com tradução de Candido Prunes e Winston Ling, editada pela Ortiz, e co-editado em 1991 pelo IEE de Porto Alegre.
* Carlos Alberto Reis Lima é médico e escritor.
Autor: Ayn Rand
"I have come here to say that I do not recognized anyone’s right to one minute of my life… It had to be said. The world is perishing from an orgy of self-sacrificing". Ayn Rand, The Fountainhead
Para Ayn Rand, o significado atribuído ao egoísmo representa uma tergiversação intelectual devastadora, a qual é responsável pelo restrito desenvolvimento moral da humanidade. Abram o dicionário, recomenda ela. Eu abri o Aurélio no verbete egoísmo, e o que encontrei? O significado que Ayn Rand considerava um embuste, quase sempre carregado de tintas emocionais e ideológicas. Mas não é somente lá. Egoism OU egotism, no International Cambridge Dictionary of English, is the tendency to think only about yourself and consider yourself better and more important than other people, ou seja, a tendência a pensar somente em si mesmo e considerar você mesmo melhor e mais importante do que as outras pessoas (grifei em itálico os exageros contidos na definição). No primeiro dicionário, mais relevante para o nosso tema, o registro já equipara, como sinônimos, egoísmo e egotismo. No dicionário de que fala Ayn Rand, o significado não tem essa confusão e denotação, apenas registra que egoísmo é a preocupação com os nossos próprios interesses. Mas o nosso Aurélio dá, da primeira à última entrada do verbete, tão-somente denotações pejorativas ao egoísmo, ali visto como um vício moral, algo funesto e não recomendável. "Amor excessivo ao bem próprio, sem consideração aos interesses alheios". Novamente grifei os exageros. Afinal, não estarão certos os dicionários e errada Ayn Rand?
O que veremos abaixo é que ela demonstrou, em a Virtude do Egoísmo [1], exatamente o oposto. Sua demonstração se desenrola por toda a sua filosofia - o objetivismo. De fato, toda a sua vida e obra foram dedicadas a afirmar que o egoísmo é uma virtude, ao contrário que registra o senso comum.
Para melhor entender a sua preocupação com o egoísmo e nele reconhecer uma virtude, nada como demonstrá-lo pelo seu oposto, o altruísmo. Se olharmos o dicionário e procurarmos o significado de altruísmo, não encontraremos interpretações pejorativas. Altruísmo, no Aurélio, significa primeiro amor ao próximo; desprendimento, abnegação; doutrina que considera como fim da conduta humana o interesse do próximo - ama o próximo mais que a ti mesmo. Não há exageros, não há juízos morais negativos. Pelo contrário, o altruísmo é o próprio juiz moral com que se julgam todos os atos humanos e que no caso em questão tem um forte apelo religioso e bíblico.
O altruísta diz que a preocupação com os nossos próprios interesses (egoísmo) é nociva e que devemos renunciar (sacrificar-nos) aos nossos interesses em favor alheio. É precisamente contra esse elemento sacrificial que se insurge Ayn Rand, em outra passagem de sua obra:
"A relação entre razão e moralidade é recíproca. O homem que aceita o papel de um animal sacrificial não obterá a autoconfiança necessária para sustentar a validade de sua mente. O homem que duvida da validade de sua mente não alcançará a auto-estima necessária para sustentar o valor de sua pessoa e descobrir as premissas morais que tornam possível o valor do homem".
Assim, qualquer ação praticada para os outros é boa, e é má toda ação para nós mesmos. A ética do altruísmo afirma que o que vale (o que é moral) é a intenção de ajudar aos outros, servir ao "interesse público", ao "povo", de modo que a medida desse valor é o beneficiário da ação, e não a ação em si mesma. Por esse raciocínio, um ditador com as mãos sujas de sangue, mas munido da nobre intenção de servir ao seu povo, seria considerado moral.
Não há nesse exemplo a preocupação com o conteúdo da ação. Pela ética do altruísmo, o homem só é um ser moral quando é capaz de auto-sacrifício, de abandono do maior pelo menor, do melhor pelo pior. A renúncia ao auto-interesse e a concessão de si ao sofrimento, ou a uma resignada humildade, é vista como o único ato verdadeiramente moral.
Os altruístas costumam apresentar como prova a exceção, a emergência das situações humanas. Por exemplo, quem nunca ouviu as perguntas do tipo: o que você faria em um incêndio? Salvaria o seu próximo ou trataria de safar-se? Salvaria quem estivesse se afogando ou a tudo assistiria impassível? Para Ayn Rand, situações como essas são excepcionais, não são prova de nada, e nem põem à prova a moral humana. Não vivemos em um bote salva-vidas, assevera ela. Nossa moralidade permanente e constante não pode ser testada por situações de excepcional emergência. Ayn Rand ironiza os voluntários altruístas, abnegados e desprendidos, almas permanentemente dispostas a procurar náufragos nos sete mares para serem salvos por seu amor altruísta. Pela mesma razão ela alfineta os exércitos de voluntários.
Em suma, a moral atual não está no indivíduo, mas naquilo e naqueles em que ele se projetou - a sociedade; antes ainda ela habitava um centro divino. Esta sociedade é a beneficiária; esta é a ação moral exclusiva. Por esta ótica o indivíduo está totalmente ausente, a humanidade é por ela mal interpretada, e a natureza humana é vista como vil e má.
A questão da auto-estima também serve à prova de Ayn Rand de que o egoísmo é uma virtude. Toda a discussão atual da auto-estima está falseada por essa ética do altruísmo, porque a auto-estima somente pode se referir ao indivíduo - aquele que deveria ser o beneficiário do seu próprio interesse e assim conquistar o título de moral. O altruísmo é o contrário; é a antítese da auto-estima. Além disso, a auto-estima reconhecida apenas pelo altruísmo, ou pela negação do egoísmo, gerou sociedades modernas coletivistas e racistas.
Nestas últimas a auto-estima é automática, diz Ayn Rand. Ela é dada pela "raça", por determinação genética, pela magia tribal primitiva que prende o indivíduo em uma esfera de exceção autoglorificante. Daí, infere ela, a necessidade daquele que nada construiu querer se integrar no bando que artificiosamente lhe infunde uma sensação de poder, de segurança, de pertinência, que só pode gerar uma falsa auto-estima. Como a auto-estima só se pode referir ao indivíduo, assim como o orgulho só se pode referir a nós mesmos (não há orgulho pelos feitos dos outros; esse sentimento chama-se admiração, respeito, amor, nunca orgulho), o altruísmo coletivista é uma base falsa sobre a qual viceja o racismo. Não é por outro motivo que em sociedades que se auto-reverenciam como "morais" pelo apelo quase irresistível ao altruísmo se fortalecem todos os tipos de racismo. Elas são também coletivistas, e nelas o valor não repousa mais no indivíduo, mas na massa. Reciprocamente, o valor socialista máximo, a igualdade, já antecipa os esforços dos abnegados salvadores do mundo sempre em busca de quem igualar, alimentando, abrigando, vestindo, salvando e, finalmente, tiranizando, até aqueles que não pediram para serem salvos.
"Orgulhos" de raça, de bando, são manifestações e expressões de ódio disfarçado que se nutrem do sofrimento, do desprezo; são valores negativos de destruição, de supremacia violenta e, como tais, violentam o princípio fundamental do pensamento randiano, o indivíduo racional, cujo maior valor é a vida.
A pior conseqüência que uma sociedade erigida na base "ética" altruísta pode sofrer tem sido o Estado totalitário a partir do surgimento do coletivismo e do racismo. Ayn Rand adverte que contra o racismo somente se pode receitar o individualismo, o egoísmo virtuoso, antídoto certo que recupera a verdadeira auto-estima, condição prazerosa para a paz verdadeira dentro da sociedade e entre elas, algo que só se torna possível quando a razão é o norte humano, o único juiz a testar a nossa moralidade. Lutar contra o coletivismo é lutar contra as maiorias em favor das minorias, e não existe minoria menor do que um, o indivíduo. Ao contrário, segregar a sociedade por grupos, raças, ou bandos, somente engendra ódios destruidores. Cotas raciais são cotas certas de ódio, resgatáveis em um tempo líquido e certo dentro de uma sociedade. Como disse Ayn Rand:
"Como toda a forma de coletivismo, o racismo é uma procura pelo não-obtido. É uma procura pelo conhecimento automático - por uma avaliação automática da índole dos homens que desviam as responsabilidades de exercitar o julgamento racional ou moral - e, acima de tudo, uma procura por uma auto-estima automática (ou pseudo auto-estima)". (pg. 160; A Virtude do Egoísmo).
Não admira que o mundo hoje, eivado de irracionalismo, racismo, affirmative actions, cotas raciais, coletivismo, direitos sociais, produzidos pela aberração autodestruidora do altruísmo, esteja a sofrer como nunca.
Não admira que em um mundo como este, o homem seja considerado mau, que a natureza humana seja dita má e pervertida.
Não admira que, em um mundo como este, o egoísmo seja visto como imoral.
Hoje podemos descobrir que o homem só é vítima de outros homens porque abdicou de sua razão; abandonou ou renunciou à fonte da moral. Hoje sabemos que os homens e seus líderes foram ensinados a viver à custa da verdadeira razão de sua própria existência, isto é, o centro metafísico e psicológico do indivíduo, o ego. Os líderes intelectuais são os causadores da derrota moderna do homem e de uma ética destruidora e suicida.
"Vocês têm usado o medo como sua arma, e têm trazido morte aos homens, punindo-os por rejeitarem a sua moralidade. Nós lhes oferecemos a vida, como recompensa por aceitar a nossa". (Do discurso de John Galt, Atlas Shrugged).
Vossa moral altruísta é podre, diria John Galt se "vivo" estivesse, e como John Galt nos faz falta! Por isso, como na epígrafe, Ayn Rand denuncia qualquer auto-sacrifício como causa da degeneração da moral da humanidade moderna. [1]
Original de 1964; versão brasileira de 1991, com tradução de Candido Prunes e Winston Ling, editada pela Ortiz, e co-editado em 1991 pelo IEE de Porto Alegre.
* Carlos Alberto Reis Lima é médico e escritor.
Egoísmo, a Virtude Maldita - Parte II
Egoísmo, a Virtude Maldita - Parte II
Autor: Ayn Rand
"O criador está acima de qualquer humanitário É verdade que os reais benfeitores da humanidadeforam os homens produtivos, criadores. Nenhum humanitário jamais teve ou pôde se igualar em benefícios para os homens como um Thomas Edison, ou um Henry Ford. Mas o criador não está preocupado com os benefícios; eles são conseqüências secundárias. Ele considera seu trabalho, não o amor ou serviço para os outros. Thomas Edison não estava preocupado com os pobres nas favelas ou com quem viesse a ter luz elétrica. Ele estava preocupado com a luz. (Cartas de Ayn Rand (New York: Dutton [Penguin], 1995), M. Berliner, ed., p. 82.)
Indivíduos livres e que trocam experiências (afetivas, culturais, comerciais) entre si não têm tempo para semear revoltas e secessões raciais. As pessoas doentias moralmente, com o cérebro embotado pela "ética" altruísta e coletivista que plantam sementes de inveja colherão ódios generalizados e muita pobreza. Tais pessoas estariam dominadas pelo feitiço dos direitos "sociais", por privilégios de grupos, e teriam pseudoqualidades étnicas e raciais. Em sociedades assim constituídas, o indivíduo tenderia a dar lugar ao rebanho furioso, enlouquecido, invejoso e rancoroso estimulado pelo coletivismo, que reivindica direitos e mais direitos para a consagração de um pai generoso que os prodigaliza, mas que na verdade os escraviza.
Lula no discurso da sessão inaugural da 58a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas fez um discurso que podemos identificar como apaziguador e altruísta. Citou Gandhi e seu apelo pela não-violência quanto à questão do terrorismo; falou na fome internacional concitando os países ricos a darem maior atenção a ela. Sua intenção no discurso era falsa porque seu objetivo era alfinetar os Estados Unidos, ajudando a manter o clima hostil à atuação americana no mundo. Mesmo se sua intenção fosse honesta estaria equivocado porque seu discurso seria altruísta e apaziguador se pudéssemos interpretá-lo pelo discurso de Ayn Rand. Tentava ele domesticar o monstro terrorista com o discurso da covardia moral, o discurso do auto-sacrifício imerso no banho sagrado do "interesse público". Ele teria sido intimidador, destrutivo, e inculcador de dúvidas e incertezas.
E por que ele fez isso? Ayn Rand responderia que ele não o faria se o mundo não esperasse que ele fizesse exatamente isso, porque a linguagem do altruísmo hoje, como propaganda, domina todo o cenário e o imaginário, todo o consciente e o inconsciente humano. É tão amplamente majoritário que qualquer objeção a essa "norma" será considerada imoral ou dada como insana. É simplesmente a moralidade vigente. Ayn Rand fez há mais de 30 anos essa advertência clareando para nós, com muita coragem, o caminho do sucesso do altruísmo, e como ele veio a se tornar a única norma moral válida e universal em nossos tempos. Sua filosofia, o Objetivismo, que recebeu esse nome no lugar de Racionalismo - porquanto este estava muito desgastado à época em que ela delineou e fechou seu sistema -, se fosse apenas uma ética, seria o oposto perfeito de altruísmo.
Mas o Objetivismo pretendia ser muito mais. Para começar, ele foi a primeira filosofia a identificar a relação entre a vida e os valores morais, diz Leonard Peikoff, seu herdeiro. "Ética, diz Ayn Rand, é uma necessidade metafísica e objetiva da sobrevivência humana - não pela graça do sobrenatural, dos seus vizinhos, nem dos seus desejos, mas pela graça da realidade da natureza da vida". "Tudo que é próprio para a vida de um ser racional é bom; tudo que a destrói é mau".
Essas asserções, típicas do discurso do seu herói - John Galt -, são o oposto do altruísmo que não reconhece no indivíduo nenhum valor. As mentes obliteradas pelo misticismo e pelo ceticismo retiraram do homem qualquer chance de usar sem culpa a própria razão, única faculdade capaz de promover a escolha de um código moral para si. Para o místico a realidade é o infinito, para o cético é o zero. É a perdição, a desorientação dos valores. A ética é então a ciência que constrói um código de valores capaz de nos orientar para a busca do nosso maior propósito, a vida. Mas usar a razão é pensar, e pensar é difícil e exige egoísmo. A vida requer ganho de valores, não perda; conquista, não renúncia; autopreservação, não auto-sacrifício, afirma Leonard Peikoff. O homem até pode escolher a auto-imolação, mas não deverá esperar dela a prosperidade e a sobrevivência, continua ele. Um código de auto-interesse racional rejeita toda forma de sacrifício humano, seja o nosso em relação aos outros, seja o dos outros em relação a nós. Dele emanam todas as outras virtudes; a independência, honestidade, justiça, produtividade, integridade, orgulho.
O Objetivismo de Ayn Rand, que pode ser resumido esquematicamente nas equações:
Metafísica = Realidade
Epistemologia = Razão
Ética = Auto-Interesse
Política = Capitalismo,
repousa no indivíduo e em sua razão soberana. Mas o processo do pensamento é feito pelo homem, no singular, não pelos homens, ou sociedade, comitê, grupo orgânico, "sociedade civil organizada". Há quem contradite isso sob vários argumentos, mas esse raciocínio seria outra forma, ou outra expressão do altruísmo vigente, encouraçado, infenso à argumentação não viciada e contaminada, perdidamente contaminada pelo coletivismo. Rand pensava no ser vivente, não no ser humano; Rand pensava aqui e agora. Nenhuma visão de além-túmulo ou futurista está no sistema filosófico que ela deixou. A é A, assim como o homem é homem, se individualmente considerado. Este é seu princípio de identidade; é nele que surge a condição metafísica primária para o conhecimento, e pelo uso da razão, a escolha de valores dada pela ciência da ética. Depois disso tem que lhe ser reservada e preservada a liberdade para o seu sucesso econômico vital. Não há outro discurso filosófico possível para a busca do auto-interesse e da autopreservação, pelo menos não com esse apelo natural. Qualquer tentativa de fugir dessa ciência natural explica e justifica a autodestruição do homem. No entanto...
No entanto, os destruidores da riqueza e da vida; os predadores da razão e da liberdade, por pobreza de caráter, por inveja, ou por limitação da inteligência, estão cultivando o zero ou o infinito. Do discurso de John Galt o culto ao zero - o símbolo da impotência - busca eliminar da raça humana o herói, o pensador, o inventor, o produtor, o persistente, o puro. Para os apóstolos do zero é como se sentir fosse humano, e pensar não. Como se fracassar fosse humano, e triunfar não, com se fosse humano a corrupção, a virtude não.
Já os místicos declarados sustentariam a vontade de Deus como o padrão do bem e como validação da ética. Os neomísticos iluminados O substituíram pelo "bem da sociedade". Desta forma, com esse novo deus de minúscula magnitude, mas de infinita importância - a sociedade -, e desde então, se criou o mito do século XX e XXI. Porém, sociedade não existe, é apenas um número de indivíduos, embora alguns homens estejam eticamente autorizados a perseguir quaisquer caprichos (ou quaisquer atrocidades) enquanto outros homens estão eticamente obrigados a passar suas vidas a serviço desta gangue.
Se alguém denunciar essa ética deformada logo será jogado contra a parede e será coberto de impropérios de todos os lados. Ayn Rand também se lembrou disso. A essa estratégia de fugir do discurso de John Galt ela chamou argumento de intimidação. Segundo ela, esse método usual no debate político e público, é estratégia de difamação, intimidação e apaziguamento. É a tentativa de promover a credulidade irrefletida apelando e contando com a covardia moral dos ouvintes. Seria o discurso de Lula na ONU? Seria o discurso político no Brasil?
Em outra passagem de sua obra Ayn Rand, talvez precavidamente adverte:
"... Não sou primariamente uma advogada do capitalismo, mas do egoísmo; e não sou primariamente uma advogada do egoísmo, mas da razão. Se alguém reconhece a supremacia da razão e a aplica consistentemente, tudo o mais segue. Isto - a supremacia da razão - foi, é e será a preocupação primária de meu trabalho, e a essência do Objetivismo. ... A razão na epistemologia leva ao egoísmo na ética, que por sua vez leva ao capitalismo na política. A estrutura hierárquica não pode ser invertida, nem pode um nível posterior se sustentar sem o fundamental".
E em outro pensamento do tipo "objetivista" de Ayn Rand:
"Não podemos lutar contra o coletivismo, a menos que lutemos contra sua base moral, o altruísmo. Não podemos lutar contra o altruísmo, a menos que lutemos contra sua base epistemológica, o irracionalismo. Não podemos lutar contra nada - a menos que lutemos por alguma coisa, e aquilo pelo que devemos lutar é a supremacia da razão, e uma visão do homem como ser racional" Ayn Rand, "Don't Let it Go", in PWNI, p.214 (penúltimo parágrafo do livro)
Até aqui nessa segunda parte, tenho recolhido os principais pontos da doutrina a qual Ayn Rand deu o nome de Objetivismo como mostrados em seu livro A VIRTUDE DO EGOISMO. Na parte final, maior, e momento próprio da crítica, estarei mostrando as suas principais objeções. Ayn Rand e sua filosofia tiveram e têm críticos ferozes, inclusive entre libertários famosos como Murray Rothbard, por exemplo.
Mas uma nota seria necessária nesse momento. O tópico da virtude, propriamente dito, nunca foi o objetivo desse estudo e muito menos o do egoísmo. Foi um moto para oportunizar outras diversas preempções felizes que atualizam a autora frente à realidade brasileira. À virtude, ao egoísmo/altruismo, deverei voltar oportunamente; em outra série, em outro âmbito, na etologia, na zoologia, onde, porém, as controvérsias não são menores, apenas gozam de número menor de contendores iluminados. O mérito, que nunca esteve em conta se o egoísmo é ou não é uma virtude, parece que foi apagado por um consenso que absorvi de críticas recentes, algumas delas justamente indignadas. De fato, seria preferível dar ao altruísmo a dúvida de ele sim ser uma virtude e não o egoísmo, como escreveu Ayn Rand. Não foi a intenção de Ayn Rand, entretanto. Ela preferiu o confronto e arcou com os custos e os riscos disso tentando apresentá-lo dentro de um edifício filosófico, quase unanimemente contraditado e condenado por outros cultos e por quem de direito.
* Carlos Alberto Reis Lima é médico e escritor.
Autor: Ayn Rand
"O criador está acima de qualquer humanitário É verdade que os reais benfeitores da humanidadeforam os homens produtivos, criadores. Nenhum humanitário jamais teve ou pôde se igualar em benefícios para os homens como um Thomas Edison, ou um Henry Ford. Mas o criador não está preocupado com os benefícios; eles são conseqüências secundárias. Ele considera seu trabalho, não o amor ou serviço para os outros. Thomas Edison não estava preocupado com os pobres nas favelas ou com quem viesse a ter luz elétrica. Ele estava preocupado com a luz. (Cartas de Ayn Rand (New York: Dutton [Penguin], 1995), M. Berliner, ed., p. 82.)
Indivíduos livres e que trocam experiências (afetivas, culturais, comerciais) entre si não têm tempo para semear revoltas e secessões raciais. As pessoas doentias moralmente, com o cérebro embotado pela "ética" altruísta e coletivista que plantam sementes de inveja colherão ódios generalizados e muita pobreza. Tais pessoas estariam dominadas pelo feitiço dos direitos "sociais", por privilégios de grupos, e teriam pseudoqualidades étnicas e raciais. Em sociedades assim constituídas, o indivíduo tenderia a dar lugar ao rebanho furioso, enlouquecido, invejoso e rancoroso estimulado pelo coletivismo, que reivindica direitos e mais direitos para a consagração de um pai generoso que os prodigaliza, mas que na verdade os escraviza.
Lula no discurso da sessão inaugural da 58a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas fez um discurso que podemos identificar como apaziguador e altruísta. Citou Gandhi e seu apelo pela não-violência quanto à questão do terrorismo; falou na fome internacional concitando os países ricos a darem maior atenção a ela. Sua intenção no discurso era falsa porque seu objetivo era alfinetar os Estados Unidos, ajudando a manter o clima hostil à atuação americana no mundo. Mesmo se sua intenção fosse honesta estaria equivocado porque seu discurso seria altruísta e apaziguador se pudéssemos interpretá-lo pelo discurso de Ayn Rand. Tentava ele domesticar o monstro terrorista com o discurso da covardia moral, o discurso do auto-sacrifício imerso no banho sagrado do "interesse público". Ele teria sido intimidador, destrutivo, e inculcador de dúvidas e incertezas.
E por que ele fez isso? Ayn Rand responderia que ele não o faria se o mundo não esperasse que ele fizesse exatamente isso, porque a linguagem do altruísmo hoje, como propaganda, domina todo o cenário e o imaginário, todo o consciente e o inconsciente humano. É tão amplamente majoritário que qualquer objeção a essa "norma" será considerada imoral ou dada como insana. É simplesmente a moralidade vigente. Ayn Rand fez há mais de 30 anos essa advertência clareando para nós, com muita coragem, o caminho do sucesso do altruísmo, e como ele veio a se tornar a única norma moral válida e universal em nossos tempos. Sua filosofia, o Objetivismo, que recebeu esse nome no lugar de Racionalismo - porquanto este estava muito desgastado à época em que ela delineou e fechou seu sistema -, se fosse apenas uma ética, seria o oposto perfeito de altruísmo.
Mas o Objetivismo pretendia ser muito mais. Para começar, ele foi a primeira filosofia a identificar a relação entre a vida e os valores morais, diz Leonard Peikoff, seu herdeiro. "Ética, diz Ayn Rand, é uma necessidade metafísica e objetiva da sobrevivência humana - não pela graça do sobrenatural, dos seus vizinhos, nem dos seus desejos, mas pela graça da realidade da natureza da vida". "Tudo que é próprio para a vida de um ser racional é bom; tudo que a destrói é mau".
Essas asserções, típicas do discurso do seu herói - John Galt -, são o oposto do altruísmo que não reconhece no indivíduo nenhum valor. As mentes obliteradas pelo misticismo e pelo ceticismo retiraram do homem qualquer chance de usar sem culpa a própria razão, única faculdade capaz de promover a escolha de um código moral para si. Para o místico a realidade é o infinito, para o cético é o zero. É a perdição, a desorientação dos valores. A ética é então a ciência que constrói um código de valores capaz de nos orientar para a busca do nosso maior propósito, a vida. Mas usar a razão é pensar, e pensar é difícil e exige egoísmo. A vida requer ganho de valores, não perda; conquista, não renúncia; autopreservação, não auto-sacrifício, afirma Leonard Peikoff. O homem até pode escolher a auto-imolação, mas não deverá esperar dela a prosperidade e a sobrevivência, continua ele. Um código de auto-interesse racional rejeita toda forma de sacrifício humano, seja o nosso em relação aos outros, seja o dos outros em relação a nós. Dele emanam todas as outras virtudes; a independência, honestidade, justiça, produtividade, integridade, orgulho.
O Objetivismo de Ayn Rand, que pode ser resumido esquematicamente nas equações:
Metafísica = Realidade
Epistemologia = Razão
Ética = Auto-Interesse
Política = Capitalismo,
repousa no indivíduo e em sua razão soberana. Mas o processo do pensamento é feito pelo homem, no singular, não pelos homens, ou sociedade, comitê, grupo orgânico, "sociedade civil organizada". Há quem contradite isso sob vários argumentos, mas esse raciocínio seria outra forma, ou outra expressão do altruísmo vigente, encouraçado, infenso à argumentação não viciada e contaminada, perdidamente contaminada pelo coletivismo. Rand pensava no ser vivente, não no ser humano; Rand pensava aqui e agora. Nenhuma visão de além-túmulo ou futurista está no sistema filosófico que ela deixou. A é A, assim como o homem é homem, se individualmente considerado. Este é seu princípio de identidade; é nele que surge a condição metafísica primária para o conhecimento, e pelo uso da razão, a escolha de valores dada pela ciência da ética. Depois disso tem que lhe ser reservada e preservada a liberdade para o seu sucesso econômico vital. Não há outro discurso filosófico possível para a busca do auto-interesse e da autopreservação, pelo menos não com esse apelo natural. Qualquer tentativa de fugir dessa ciência natural explica e justifica a autodestruição do homem. No entanto...
No entanto, os destruidores da riqueza e da vida; os predadores da razão e da liberdade, por pobreza de caráter, por inveja, ou por limitação da inteligência, estão cultivando o zero ou o infinito. Do discurso de John Galt o culto ao zero - o símbolo da impotência - busca eliminar da raça humana o herói, o pensador, o inventor, o produtor, o persistente, o puro. Para os apóstolos do zero é como se sentir fosse humano, e pensar não. Como se fracassar fosse humano, e triunfar não, com se fosse humano a corrupção, a virtude não.
Já os místicos declarados sustentariam a vontade de Deus como o padrão do bem e como validação da ética. Os neomísticos iluminados O substituíram pelo "bem da sociedade". Desta forma, com esse novo deus de minúscula magnitude, mas de infinita importância - a sociedade -, e desde então, se criou o mito do século XX e XXI. Porém, sociedade não existe, é apenas um número de indivíduos, embora alguns homens estejam eticamente autorizados a perseguir quaisquer caprichos (ou quaisquer atrocidades) enquanto outros homens estão eticamente obrigados a passar suas vidas a serviço desta gangue.
Se alguém denunciar essa ética deformada logo será jogado contra a parede e será coberto de impropérios de todos os lados. Ayn Rand também se lembrou disso. A essa estratégia de fugir do discurso de John Galt ela chamou argumento de intimidação. Segundo ela, esse método usual no debate político e público, é estratégia de difamação, intimidação e apaziguamento. É a tentativa de promover a credulidade irrefletida apelando e contando com a covardia moral dos ouvintes. Seria o discurso de Lula na ONU? Seria o discurso político no Brasil?
Em outra passagem de sua obra Ayn Rand, talvez precavidamente adverte:
"... Não sou primariamente uma advogada do capitalismo, mas do egoísmo; e não sou primariamente uma advogada do egoísmo, mas da razão. Se alguém reconhece a supremacia da razão e a aplica consistentemente, tudo o mais segue. Isto - a supremacia da razão - foi, é e será a preocupação primária de meu trabalho, e a essência do Objetivismo. ... A razão na epistemologia leva ao egoísmo na ética, que por sua vez leva ao capitalismo na política. A estrutura hierárquica não pode ser invertida, nem pode um nível posterior se sustentar sem o fundamental".
E em outro pensamento do tipo "objetivista" de Ayn Rand:
"Não podemos lutar contra o coletivismo, a menos que lutemos contra sua base moral, o altruísmo. Não podemos lutar contra o altruísmo, a menos que lutemos contra sua base epistemológica, o irracionalismo. Não podemos lutar contra nada - a menos que lutemos por alguma coisa, e aquilo pelo que devemos lutar é a supremacia da razão, e uma visão do homem como ser racional" Ayn Rand, "Don't Let it Go", in PWNI, p.214 (penúltimo parágrafo do livro)
Até aqui nessa segunda parte, tenho recolhido os principais pontos da doutrina a qual Ayn Rand deu o nome de Objetivismo como mostrados em seu livro A VIRTUDE DO EGOISMO. Na parte final, maior, e momento próprio da crítica, estarei mostrando as suas principais objeções. Ayn Rand e sua filosofia tiveram e têm críticos ferozes, inclusive entre libertários famosos como Murray Rothbard, por exemplo.
Mas uma nota seria necessária nesse momento. O tópico da virtude, propriamente dito, nunca foi o objetivo desse estudo e muito menos o do egoísmo. Foi um moto para oportunizar outras diversas preempções felizes que atualizam a autora frente à realidade brasileira. À virtude, ao egoísmo/altruismo, deverei voltar oportunamente; em outra série, em outro âmbito, na etologia, na zoologia, onde, porém, as controvérsias não são menores, apenas gozam de número menor de contendores iluminados. O mérito, que nunca esteve em conta se o egoísmo é ou não é uma virtude, parece que foi apagado por um consenso que absorvi de críticas recentes, algumas delas justamente indignadas. De fato, seria preferível dar ao altruísmo a dúvida de ele sim ser uma virtude e não o egoísmo, como escreveu Ayn Rand. Não foi a intenção de Ayn Rand, entretanto. Ela preferiu o confronto e arcou com os custos e os riscos disso tentando apresentá-lo dentro de um edifício filosófico, quase unanimemente contraditado e condenado por outros cultos e por quem de direito.
* Carlos Alberto Reis Lima é médico e escritor.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
DO MONOTEÍSMO PARA O UNIVERSALISMO
Superstição Monoteísta Tornou-se Anacrônica
DO MONOTEÍSMO PARA O UNIVERSALISMO
Século 21 Pode Trazer a Fraternidade Planetária
Por toda parte e desde a mais remota antiguidade, o homem criou Deus à sua própria imagem e semelhança, e não o contrário. As ideologias monoteístas fortalecem a intolerância. Desde que elas passaram a dominar, não têm faltado tentativas de assegurar-se a posse exclusiva do mundo divino por parte de diferentes povos, cujos deuses, convenientemente, autorizam a matar e a maltratar sem dó nem piedade os “infiéis”, os “hereges” e os “descrentes”.
O deus dos cristãos seria, supostamente, “o único existente”. Esta pretensão pouco modesta justificou o desrespeito e a perseguição não só dos judeus, mas dos povos indígenas das Américas, da África e da Ásia. Na verdade o deus dos cristãos é uma cópia e uma versão romanizada do deus judaico, que, por sua vez, também é supostamente “único”, tenha sido tomado e adaptado de povos e tribos ainda mais antigos. Ao invés de agradecer aos hebreus por tomar-lhes emprestado o seu Deus e a sua escritura, os cristãos perseguiram os seguidores de Jeová durante quase dois mil anos. Tentaram eliminá-los como povo e como cultura, pela intimidação, pela assimilação forçada, e pela violência física. Talvez por isso Adolf Hitler nunca tenha sido excomungado, e nem sequer criticado pelo Papa, antes da sua derrota militar. Na área do desrespeito aos direitos humanos, Adolf Hitler e os papas tinham muito em comum.
O deus muçulmano é uma criação mais recente que a divindade monoteísta cristã. Ele também é apresentado como o único deus que existe, mas, na prática, ele é um irmão mais jovem do deus que hoje é controlado - em suas diversas versões - pelas igrejas católicas, ortodoxas, protestantes e luteranas.
A verdade é que, desde a mais remota antiguidade, cada povo tem produzido sempre os seus mitos simbólicos e divinos com base na mitologia herdada de povos mais antigos. Helena P. Blavatsky escreveu em “A Doutrina Secreta”:
“Não é o Uno Desconhecido e sempre presente Deus na Natureza, ou Natureza in abscondito, que é rejeitado, mas o Deus do dogma humano e a sua “Palavra” humanizada. Com sua infinita presunção e seu orgulho e vaidade inerentes, o homem criou ele próprio o seu Deus com sua mão sacrílega a partir dos materiais que encontrou em sua pequena estrutura cerebral, e o impôs à humanidade como se fosse uma revelação direta do ESPAÇO uno e não revelado.” [1]
A “Carta do Grande Mestre” - também conhecida na literatura esotérica como “Carta do Chohan” - descreve o programa de ação de longo prazo do movimento teosófico. Ali podemos ler a seguinte profecia, cujo cumprimento deverá ocorrer com ajuda ativa do movimento esotérico autêntico:
“As doutrinas fundamentais de todas as religiões se comprovarão idênticas em seu significado esotérico, uma vez que sejam desagrilhoadas e libertadas do peso morto representado pelas interpretações dogmáticas, dos nomes pessoais, das concepções antropomórficas e dos sacerdotes assalariados. Osíris, Krishna, Buda e Cristo serão apresentados como nomes diferentes de uma mesma estrada real para a bem-aventurança final, o Nirvana.”
E a carta do Chohan prossegue:
“O Cristianismo místico, isto é, aquele Cristianismo que ensina a autolibertação através do nosso próprio sétimo princípio - o Para-Atma (Augoeides) libertado, chamado por alguns de Cristo, por outros, de Buda, e equivalente à regeneração ou renascimento em espírito - será visto como exatamente a mesma verdade do Nirvana do Budismo. Todos nós temos de nos livrar de nosso próprio Ego, o ser ilusório e aparente, a fim de reconhecer nosso verdadeiro ser em uma vida divina transcendental. Mas, se não formos egoístas, devemos esforçar-nos e fazer com que outras pessoas vejam essa verdade, e reconheçam a realidade desse ser transcendental, o Buda, Cristo ou Deus de cada pregador. Esta é a razão por que mesmo o Budismo exotérico é o caminho mais seguro para conduzir os homens em direção à única verdade esotérica. Do modo como se encontra o mundo agora, seja cristão, muçulmano ou pagão, a justiça é desconsiderada, enquanto a honra e a piedade são atiradas ao vento.”
Mais adiante, o documento afirma:
“O mundo em geral, e especialmente a cristandade, abandonado por dois mil anos ao regime de um Deus pessoal, bem como a seus sistemas políticos e sociais baseados nessa idéia, provou agora ser um fracasso.” [2]
De fato, as religiões supersticiosas não produziram ética, nem paz, nem justiça social. Tampouco estabeleceram um convívio equilibrado com o meio ambiente natural. Elas deixaram de servir à evolução humana, e algo melhor do que elas está surgindo agora, gradualmente. O processo de nascimento da visão pós-dogmática e universalista do mundo deverá acelerar-se nos séculos 21 e 22.
NOTAS:
[1] “A Doutrina Secreta”, H.P. Blavatsky, Ed. Pensamento, edição em seis volumes, ver volume I, p. 77. Na edição original, “The Secret Doctrine”, H. P. Blavatsky, Theosophy Co., Los Angeles, 1982, volume I, p. 9.
[2] O texto “A Carta do Grande Mestre” pode ser localizado através da “Lista de Textos por Ordem Alfabética”, no website www.filosofiaesoterica.com. Para localizar o documento através da Lista de Textos por Autor, busque-se como autor “Um Mahatma dos Himalaias”.
A Dimensão Sutil da Crença em Deus
Espíritos Anti-Evolutivos Animam as Crenças Religiosas Dogmáticas
A crença popular no Deus pessoal, vingativo, rancoroso e temível que é imaginado pelas igrejas e religiões convencionais constitui uma causa desnecessária de sofrimento humano, segundo alerta a Carta 88 das “Cartas dos Mahatmas”.
A julgar pelas ações dos seus sacerdotes, este deus justifica mentir, matar e oprimir, sempre que tais crimes sejam feitos - pelo menos nominalmente - para maior glória dele próprio.
No entanto, isso não é tudo. Não basta perceber apenas este mecanismo da credulidade dos povos. Um documento incluído em “Cartas dos Mahatmas” mostra um aspecto mais sutil, e amplamente desconhecido, do processo da crença em deus. Trata-se da Carta número 30, no volume I, que inclui uma mensagem colocada no papel por H.P. Blavatsky, sob ditado do mestre dela.
O texto ditado revela que os deuses das religiões dogmáticas são de fato energias sutis animadas por espíritos planetários anti-evolutivos, cuja função cármica é evitar que a Vitória da Sabedoria Universal no coração humano ocorra de modo prematuro. O Mestre designa tais espíritos planetários atrasados pelo nome de Ma-Mo Chohans.
Na mesma Carta 30, o Mahatma explica por que motivo um Raja-Iogue não pode ajudar em sua caminhada a quem crê em superstições como “Deus” e “Deuses” no sentido dogmático. Tal crença destrói as possibilidades de uma afinidade magnética, porque fecha a aura do indivíduo para a expansão de consciência que constitui a substância do caminho espiritual.
Diz a Carta 30:
“A fé em Deuses ou em Deus e outras superstições atraem milhões de influências alheias, entidades vivas e poderosos agentes para perto das pessoas, e nos veríamos obrigados a usar algo mais que o exercício comum de poder para afastá-los. Nós decidimos não fazê-lo. Não consideramos necessário nem proveitoso perder o nosso tempo travando uma guerra com planetários [1] atrasados que se deliciam personificando deuses e, às vezes, personagens famosos que viveram na terra. Existem Dhyan-Chohans, e 'Chohans das Trevas', não o que eles chamam de diabos, mas 'Inteligências' imperfeitas que nunca nasceram nesta ou em qualquer outra terra ou esfera, tanto quanto os 'Dhyan-Chohans', e que nunca farão parte dos 'construtores do Universo', as Inteligências Planetárias puras que presidem cada Manvantara, enquanto que os Chohans das Trevas presidem os Pralayas. Explique isso ao sr. Sinnett (EU NÃO POSSO) – diga-lhe que leia de novo o que disse a eles nas poucas coisas que expliquei ao sr. Hume, e que ele se lembre de que, assim como tudo neste universo é contraste (não posso traduzi-lo melhor) assim também a luz dos Dhyan Chohans e sua inteligência pura é contrastada pelos 'Ma-Mo Chohans' – e sua inteligência destrutiva. Esses são os deuses que hindus, cristãos, maometanos e todos os demais integrantes de religiões e seitas intolerantes fanáticas adoram; e enquanto a sua influência se fizer sentir sobre os seus devotos, não nos ocorreria a idéia de associar-nos a eles nem de opor-nos a seu trabalho, do mesmo modo como em relação aos Gorros Vermelhos [2] na terra, cujos resultados maléficos tratamos de diminuir, mas com cujo trabalho não temos direito de imiscuir-nos, enquanto eles não se interpuserem em nosso caminho.”
Depois desta mensagem ditada pelo raja-iogue, Helena Blavatsky prossegue na carta acrescentando uma explicação sua. Ela diz o seguinte (colocamos alguns termos explicativos entre colchetes, em itálico e sublinhados) :
“Aqui (...) [o Mestre] quer dizer que eles não têm o direito, nem o poder, de ir contra a natureza, ou contra aquele trabalho que foi destinado pela lei da natureza para cada tipo de seres ou coisas existentes. Os Irmãos [os Mahatmas] , por exemplo, podem (....) até certo grau reduzir o mal e aliviar o sofrimento: mas não podem destruir o mal. Do mesmo modo os Dhyan Chohans [espíritos planetários evolutivos, que trabalham pela libertação humana] não podem impedir o trabalho dos Mamo Chohans, pois a Lei destes é trevas, ignorância, destruição, etc., assim como a Lei dos primeiros é Luz, conhecimento e criação. Os Dhyans Chohans respondem a Buddh, Sabedoria Divina e Vida em conhecimento abençoado, e os Ma-mos são a corporificação na natureza de Shiva, Jeová e outros monstros inventados, que têm a ignorância como seguidora.”
Vemos assim que, de acordo com a filosofia esotérica, há de fato algo “real” que interage no plano sutil com as seitas religiosas cuja base é o dogmatismo e a crença ritualista. Este “algo” são espíritos planetários anti-evolutivos.
A tarefa da teosofia - e a filosofia ocidental clássica sempre apontou no mesmo sentido - é libertar a humanidade do pensamento supersticioso que procura perpetuar a ignorância.
NOTAS:
[1] Isto é, espíritos planetários. (N. ed. bras.)
[2] Seita asiática cujo trabalho é contrário à evolução espiritual. (N. ed. bras.)
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Dependência Teológica Destrói Autoconfiança
A Crença Como Problema Pedagógico
Um Mahatma explicou os motivos psicológicos pelos quais a crença supersticiosa em um Deus Monoteísta obstaculiza o aprendizado espiritual. Diz o Mestre:
“Um sentimento constante de dependência abjeta a uma Divindade vista como a única fonte de poder faz com que um homem perca toda autoconfiança e o impulso para a atividade e a iniciativa. Tendo começado por criar um pai e guia para si, ele se torna como um menino e permanece assim até a idade avançada, esperando ser conduzido pela mão tanto nos pequenos como nos grandes acontecimentos da vida. O ditado “Ajuda a ti mesmo e Deus te ajudará” é interpretado por ele de tal maneira que, quando um empreendimento resulta de modo vantajoso, ele credita isso apenas a si mesmo; quando é um fracasso, ele atribui isto à vontade de seu Deus. (.....) Os pecados de vocês? O maior é atribuir a Deus a tarefa de libertá-los deles. Esta não é uma piedade meritória, mas uma debilidade egoísta e indolente. Ainda que a vaidade possa sussurrar o contrário, preste atenção apenas a seu bom senso.” [1]
Ou seja, enquanto houver crença em um deus monoteísta, não pode haver uma compreensão cabal de que o principal templo é nossa própria consciência, e que a grande divindade, invisível e impessoal, é Atma, o princípio universal presente neste Templo e também fora dele. Este princípio é imparcial. Ele não manipula os fatos. Ele não faz favores, nem não pode ser comprado ou subornado com homenagens, velas acesas, elogios, missas, cultos, orações, pedidos, novenas, procissões ou promessas.
No caminho da felicidade, vale, isso sim, o ensinamento do Jesus do Novo Testamento: o que se planta, se colhe. Vale a lei do carma, e não o suposto favor pessoal de deuses monoteístas imaginários. É deste modo que a humanidade cresce. Pode ser difícil desafiar e abandonar as ilusões: mas não há outro caminho.
NOTA:
[1] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, Primeira Série, Carta 43.
Raja Ioga Propõe a Auto-Libertação
Liberdade Resulta do Exercício da Responsabilidade Cármica
A teosofia - assim como a Raja Ioga - propõe o caminho da autonomia do aprendiz. Os obstáculos que impedem a felicidade de cada indivíduo devem ser afastados do seu caminho por ele mesmo e por mérito próprio. Ele próprio criou os obstáculos, e, portanto, a tarefa de afastá-los pertence a ele. Este é o ensinamento da lei do carma.
O processo pelo qual o indivíduo humano cria sempre a cada momento as circunstâncias do seu futuro passa pelo encadeamento constante dos pensamentos entre si, através de hábitos e padrões estabelecidos. Estes hábitos, porém, estão sujeitos à alteração através da força de vontade.
Um Mestre explica como se dá o mecanismo:
“....Cada pensamento do homem, ao ser produzido, passa ao mundo interno e se torna uma entidade ativa associando-se - amalgamando-se, poderíamos dizer - com um elemental, isto é, com uma das forças semi-inteligentes dos reinos. Ele sobrevive como inteligência ativa - uma criatura gerada pela mente - por um período mais curto ou mais longo, proporcionalmente à intensidade da ação cerebral que o gerou. Desse modo um bom pensamento é perpetuado como força ativa e benéfica, um mau pensamento como demônio maléfico. Assim, o homem está constantemente ocupando sua corrente no espaço com seu próprio mundo, um mundo povoado com a prole de suas fantasias, desejos, impulsos e paixões; uma corrente que reage sobre qualquer organização sensível ou nervosa que entre em contato com ela na proporção da sua intensidade dinâmica. A isto os budistas chamam ‘Skandha’. Os hindus lhe dão o nome de ‘Carma’. O adepto produz essas formas conscientemente; os outros homens as atiram fora inconscientemente.” [1]
NOTA:
[1] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Brasília, volume II, p. 343, Primeira Carta para A.O.Hume.
Trocando Dogmas por Autoconfiança
Combinando Independência Pessoal Com Compaixão Universal
Para a teosofia original, o estudante deve combinar independência pessoal com solidariedade. Ele deve reunir em si auto-responsabilidade e compaixão universal. Nenhum mestre tem como função salvar o aprendiz dos seus próprios erros, ou das consequência dos seus erros no passado. A função do mestre é dar elementos para que o discípulo liberte a si próprio.
Nos trechos a seguir, tirados de cartas dos Mestres, vemos os princípios pedagógicos seguidos pelos instrutores autênticos:
* “... Você tem uma carta minha em que explico por que nós nunca guiamos nossos chelas (mesmo os mais avançados); nem os avisamos antecipadamente, mas deixamos que os efeitos produzidos pelas causas criadas por eles ensinem-lhes uma melhor experiência.” [1]
* “Você está pronta para fazer a sua parte no grande trabalho da filantropia? Você ofereceu-se para a Cruz Vermelha; mas, Irmã [2] , existem doenças e feridas da alma que não podem ser curadas pela arte de nenhum cirurgião. Irá auxiliar-nos a ensinar à humanidade que os doentes-da-alma devem curar-se a si próprios? Sua ação será sua resposta.” [3]
* “Todo ser humano contém dentro de si vastas potencialidades, e é dever dos adeptos rodear o possível chela com circunstâncias que o capacitarão para tomar o “caminho da direita” - se ele tiver a capacidade dentro de si. Não temos o direito de retirar a chance de um postulante, assim como não podemos guiá-lo e dirigi-lo pelo caminho correto. Na melhor das hipóteses, podemos apenas mostrar a ele - depois que seu período de provação terminou exitosamente - que se ele fizer isso irá bem; se fizer aquilo, irá mal. Mas até que ele haja passado por esse período, nós deixamos que ele trave suas batalhas do melhor modo que puder; e temos que fazer o mesmo ocasionalmente com chelas mais adiantados e iniciados, como H.P.B., uma vez que lhes é permitido trabalhar no mundo, o que todos nós evitamos mais ou menos. E além disso (.....) nós deixamos que nossos candidatos sejam tentados de mil maneiras diferentes, de modo que venha para fora a totalidade da sua natureza interna, e deixamos a esta a possibilidade de vencer de uma maneira ou de outra. (.....) Todos nós somos testados dessa maneira (.....).” [4]
Ao analisar certos erros cometidos por Helena Blavatsky, um Mestre escreve:
“De acordo com nossas regras, (....) [o Mestre de H.P.B.] não tinha permissão para proibi-la claramente de fazer tal coisa. Ela tinha que ter total e inteira liberdade de ação, a liberdade de criar causas que se transformariam com o tempo no seu carrasco, seu pelourinho público. Ele podia, no máximo, proibi-la de produzir fenômenos, e ele recorria a este último recurso tão freqüentemente quanto podia, para grande insatisfação dos amigos dela e dos teosofistas.” [5]
A independência é essencial para que haja um real aprendizado, segundo explica um Mahatma:
“Você está completamente desinformado sobre o nosso sistema, e se eu pudesse torná-lo claro para você, haveria dez chances contra uma de que os seus “melhores sentimentos” - os sentimentos de um europeu - ficariam perturbados, ou algo pior, com uma disciplina tão “chocante”. O fato é que, até a última e suprema iniciação, todo chela - (e mesmo alguns adeptos) - é deixado com seus recursos e opinião próprios. Temos que enfrentar nossas próprias batalhas, e o adágio familiar - “o adepto faz a si mesmo, ninguém o faz” - é verdadeiro literalmente. Já que cada um de nós é o criador e produtor das causas que levam a este ou àquele resultado, temos que colher apenas aquilo que semeamos. Nossos chelas são ajudados apenas quando são inocentes das causas que os colocaram em dificuldades; quando tais causas são geradas por influências alheias, externas. A vida e a luta pelo adeptado seriam demasiado fáceis, se todos tivéssemos limpadores atrás de nós varrendo para longe os efeitos que geramos através da nossa imprudência e presunção. (.....) Assim, passo a passo, e depois de uma série de punições, o chela aprende pela amarga experiência a suprimir e guiar seus impulsos; ele perde sua imprudência, sua auto-suficiência, e nunca cai nos mesmos erros.” [6]
No discipulado, o aprendiz deve optar entre dois caminhos:
“Um chela em provação tem permissão para pensar e fazer o que quiser. Ele é advertido e informado previamente: ‘Você será tentado e enganado pelas aparências; dois caminhos se abrirão diante de você, os dois levando à meta que você está tentando alcançar; um, fácil, e este o levará mais rapidamente ao cumprimento das ordens que você pode receber; o outro, mais árduo, mais longo; um caminho cheio de pedras e espinhos que o farão pisar em falso mais de uma vez; e no final do qual você pode, talvez, chegar a um fracasso, depois de tudo, e ser incapaz de executar as ordens dadas para um pequeno trabalho particular - mas, enquanto este caminho fará com que as dificuldades enfrentadas por você devido a ele sejam todas contabilizadas a seu favor a longo prazo, o outro, o caminho fácil, só pode oferecer a você uma gratificação momentânea, uma realização fácil da tarefa’.” [7]
O princípio pedagógico e filosófico da “autonomia do aprendiz” - para citar a expressão criada pelo educador brasileiro Paulo Freire - pode demorar ainda algum tempo até ser absorvido na prática e substituir, finalmente, as crenças dogmáticas. Ele deve ser adaptado e aplicado gradualmente a cada situação humana. Todos os seres são aprendizes, e cada momento da vida traz uma ou mais lições, para quem tem olhos para ver.
Quando o aprendizado consciente substituir finalmente os dogmas cegos, três axiomas fundamentais ficarão claros para o conjunto da humanidade:
I - “A alma do homem é imortal e o seu futuro é o de algo cujo crescimento e esplendor não têm limites”.
II- “O princípio que dá a vida mora em nós e fora de nós; é imortal e eternamente benéfico; não é ouvido, nem visto, nem apreendido pelo olfato, mas pode ser percebido pelo homem desejoso de o perceber”.
III - “Cada homem é o seu absoluto legislador, o dispensador da glória ou das trevas para si próprio; é o decretador de sua vida, recompensa e punição.” [8]
NOTAS:
[1] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Carta 95, vol. II, p. 151
[2] Na edição brasileira, vemos a palavra “Filha”. Porém vale o original em inglês, em que temos “Irmã”.
[3] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Carta 72, segunda série, p. 248.
[4] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 92, vol. II, pp. 97-98.
[5] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 92, vol. II, pp. 92-93.
[6] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 92, vol. II, p. 90-91.
[7] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 74, vol. I. p. 343.
[8] “Luz no Caminho”, M. Collins, Ed. Pensamento, SP, p. 27.
DO MONOTEÍSMO PARA O UNIVERSALISMO
Século 21 Pode Trazer a Fraternidade Planetária
Por toda parte e desde a mais remota antiguidade, o homem criou Deus à sua própria imagem e semelhança, e não o contrário. As ideologias monoteístas fortalecem a intolerância. Desde que elas passaram a dominar, não têm faltado tentativas de assegurar-se a posse exclusiva do mundo divino por parte de diferentes povos, cujos deuses, convenientemente, autorizam a matar e a maltratar sem dó nem piedade os “infiéis”, os “hereges” e os “descrentes”.
O deus dos cristãos seria, supostamente, “o único existente”. Esta pretensão pouco modesta justificou o desrespeito e a perseguição não só dos judeus, mas dos povos indígenas das Américas, da África e da Ásia. Na verdade o deus dos cristãos é uma cópia e uma versão romanizada do deus judaico, que, por sua vez, também é supostamente “único”, tenha sido tomado e adaptado de povos e tribos ainda mais antigos. Ao invés de agradecer aos hebreus por tomar-lhes emprestado o seu Deus e a sua escritura, os cristãos perseguiram os seguidores de Jeová durante quase dois mil anos. Tentaram eliminá-los como povo e como cultura, pela intimidação, pela assimilação forçada, e pela violência física. Talvez por isso Adolf Hitler nunca tenha sido excomungado, e nem sequer criticado pelo Papa, antes da sua derrota militar. Na área do desrespeito aos direitos humanos, Adolf Hitler e os papas tinham muito em comum.
O deus muçulmano é uma criação mais recente que a divindade monoteísta cristã. Ele também é apresentado como o único deus que existe, mas, na prática, ele é um irmão mais jovem do deus que hoje é controlado - em suas diversas versões - pelas igrejas católicas, ortodoxas, protestantes e luteranas.
A verdade é que, desde a mais remota antiguidade, cada povo tem produzido sempre os seus mitos simbólicos e divinos com base na mitologia herdada de povos mais antigos. Helena P. Blavatsky escreveu em “A Doutrina Secreta”:
“Não é o Uno Desconhecido e sempre presente Deus na Natureza, ou Natureza in abscondito, que é rejeitado, mas o Deus do dogma humano e a sua “Palavra” humanizada. Com sua infinita presunção e seu orgulho e vaidade inerentes, o homem criou ele próprio o seu Deus com sua mão sacrílega a partir dos materiais que encontrou em sua pequena estrutura cerebral, e o impôs à humanidade como se fosse uma revelação direta do ESPAÇO uno e não revelado.” [1]
A “Carta do Grande Mestre” - também conhecida na literatura esotérica como “Carta do Chohan” - descreve o programa de ação de longo prazo do movimento teosófico. Ali podemos ler a seguinte profecia, cujo cumprimento deverá ocorrer com ajuda ativa do movimento esotérico autêntico:
“As doutrinas fundamentais de todas as religiões se comprovarão idênticas em seu significado esotérico, uma vez que sejam desagrilhoadas e libertadas do peso morto representado pelas interpretações dogmáticas, dos nomes pessoais, das concepções antropomórficas e dos sacerdotes assalariados. Osíris, Krishna, Buda e Cristo serão apresentados como nomes diferentes de uma mesma estrada real para a bem-aventurança final, o Nirvana.”
E a carta do Chohan prossegue:
“O Cristianismo místico, isto é, aquele Cristianismo que ensina a autolibertação através do nosso próprio sétimo princípio - o Para-Atma (Augoeides) libertado, chamado por alguns de Cristo, por outros, de Buda, e equivalente à regeneração ou renascimento em espírito - será visto como exatamente a mesma verdade do Nirvana do Budismo. Todos nós temos de nos livrar de nosso próprio Ego, o ser ilusório e aparente, a fim de reconhecer nosso verdadeiro ser em uma vida divina transcendental. Mas, se não formos egoístas, devemos esforçar-nos e fazer com que outras pessoas vejam essa verdade, e reconheçam a realidade desse ser transcendental, o Buda, Cristo ou Deus de cada pregador. Esta é a razão por que mesmo o Budismo exotérico é o caminho mais seguro para conduzir os homens em direção à única verdade esotérica. Do modo como se encontra o mundo agora, seja cristão, muçulmano ou pagão, a justiça é desconsiderada, enquanto a honra e a piedade são atiradas ao vento.”
Mais adiante, o documento afirma:
“O mundo em geral, e especialmente a cristandade, abandonado por dois mil anos ao regime de um Deus pessoal, bem como a seus sistemas políticos e sociais baseados nessa idéia, provou agora ser um fracasso.” [2]
De fato, as religiões supersticiosas não produziram ética, nem paz, nem justiça social. Tampouco estabeleceram um convívio equilibrado com o meio ambiente natural. Elas deixaram de servir à evolução humana, e algo melhor do que elas está surgindo agora, gradualmente. O processo de nascimento da visão pós-dogmática e universalista do mundo deverá acelerar-se nos séculos 21 e 22.
NOTAS:
[1] “A Doutrina Secreta”, H.P. Blavatsky, Ed. Pensamento, edição em seis volumes, ver volume I, p. 77. Na edição original, “The Secret Doctrine”, H. P. Blavatsky, Theosophy Co., Los Angeles, 1982, volume I, p. 9.
[2] O texto “A Carta do Grande Mestre” pode ser localizado através da “Lista de Textos por Ordem Alfabética”, no website www.filosofiaesoterica.com. Para localizar o documento através da Lista de Textos por Autor, busque-se como autor “Um Mahatma dos Himalaias”.
A Dimensão Sutil da Crença em Deus
Espíritos Anti-Evolutivos Animam as Crenças Religiosas Dogmáticas
A crença popular no Deus pessoal, vingativo, rancoroso e temível que é imaginado pelas igrejas e religiões convencionais constitui uma causa desnecessária de sofrimento humano, segundo alerta a Carta 88 das “Cartas dos Mahatmas”.
A julgar pelas ações dos seus sacerdotes, este deus justifica mentir, matar e oprimir, sempre que tais crimes sejam feitos - pelo menos nominalmente - para maior glória dele próprio.
No entanto, isso não é tudo. Não basta perceber apenas este mecanismo da credulidade dos povos. Um documento incluído em “Cartas dos Mahatmas” mostra um aspecto mais sutil, e amplamente desconhecido, do processo da crença em deus. Trata-se da Carta número 30, no volume I, que inclui uma mensagem colocada no papel por H.P. Blavatsky, sob ditado do mestre dela.
O texto ditado revela que os deuses das religiões dogmáticas são de fato energias sutis animadas por espíritos planetários anti-evolutivos, cuja função cármica é evitar que a Vitória da Sabedoria Universal no coração humano ocorra de modo prematuro. O Mestre designa tais espíritos planetários atrasados pelo nome de Ma-Mo Chohans.
Na mesma Carta 30, o Mahatma explica por que motivo um Raja-Iogue não pode ajudar em sua caminhada a quem crê em superstições como “Deus” e “Deuses” no sentido dogmático. Tal crença destrói as possibilidades de uma afinidade magnética, porque fecha a aura do indivíduo para a expansão de consciência que constitui a substância do caminho espiritual.
Diz a Carta 30:
“A fé em Deuses ou em Deus e outras superstições atraem milhões de influências alheias, entidades vivas e poderosos agentes para perto das pessoas, e nos veríamos obrigados a usar algo mais que o exercício comum de poder para afastá-los. Nós decidimos não fazê-lo. Não consideramos necessário nem proveitoso perder o nosso tempo travando uma guerra com planetários [1] atrasados que se deliciam personificando deuses e, às vezes, personagens famosos que viveram na terra. Existem Dhyan-Chohans, e 'Chohans das Trevas', não o que eles chamam de diabos, mas 'Inteligências' imperfeitas que nunca nasceram nesta ou em qualquer outra terra ou esfera, tanto quanto os 'Dhyan-Chohans', e que nunca farão parte dos 'construtores do Universo', as Inteligências Planetárias puras que presidem cada Manvantara, enquanto que os Chohans das Trevas presidem os Pralayas. Explique isso ao sr. Sinnett (EU NÃO POSSO) – diga-lhe que leia de novo o que disse a eles nas poucas coisas que expliquei ao sr. Hume, e que ele se lembre de que, assim como tudo neste universo é contraste (não posso traduzi-lo melhor) assim também a luz dos Dhyan Chohans e sua inteligência pura é contrastada pelos 'Ma-Mo Chohans' – e sua inteligência destrutiva. Esses são os deuses que hindus, cristãos, maometanos e todos os demais integrantes de religiões e seitas intolerantes fanáticas adoram; e enquanto a sua influência se fizer sentir sobre os seus devotos, não nos ocorreria a idéia de associar-nos a eles nem de opor-nos a seu trabalho, do mesmo modo como em relação aos Gorros Vermelhos [2] na terra, cujos resultados maléficos tratamos de diminuir, mas com cujo trabalho não temos direito de imiscuir-nos, enquanto eles não se interpuserem em nosso caminho.”
Depois desta mensagem ditada pelo raja-iogue, Helena Blavatsky prossegue na carta acrescentando uma explicação sua. Ela diz o seguinte (colocamos alguns termos explicativos entre colchetes, em itálico e sublinhados) :
“Aqui (...) [o Mestre] quer dizer que eles não têm o direito, nem o poder, de ir contra a natureza, ou contra aquele trabalho que foi destinado pela lei da natureza para cada tipo de seres ou coisas existentes. Os Irmãos [os Mahatmas] , por exemplo, podem (....) até certo grau reduzir o mal e aliviar o sofrimento: mas não podem destruir o mal. Do mesmo modo os Dhyan Chohans [espíritos planetários evolutivos, que trabalham pela libertação humana] não podem impedir o trabalho dos Mamo Chohans, pois a Lei destes é trevas, ignorância, destruição, etc., assim como a Lei dos primeiros é Luz, conhecimento e criação. Os Dhyans Chohans respondem a Buddh, Sabedoria Divina e Vida em conhecimento abençoado, e os Ma-mos são a corporificação na natureza de Shiva, Jeová e outros monstros inventados, que têm a ignorância como seguidora.”
Vemos assim que, de acordo com a filosofia esotérica, há de fato algo “real” que interage no plano sutil com as seitas religiosas cuja base é o dogmatismo e a crença ritualista. Este “algo” são espíritos planetários anti-evolutivos.
A tarefa da teosofia - e a filosofia ocidental clássica sempre apontou no mesmo sentido - é libertar a humanidade do pensamento supersticioso que procura perpetuar a ignorância.
NOTAS:
[1] Isto é, espíritos planetários. (N. ed. bras.)
[2] Seita asiática cujo trabalho é contrário à evolução espiritual. (N. ed. bras.)
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Dependência Teológica Destrói Autoconfiança
A Crença Como Problema Pedagógico
Um Mahatma explicou os motivos psicológicos pelos quais a crença supersticiosa em um Deus Monoteísta obstaculiza o aprendizado espiritual. Diz o Mestre:
“Um sentimento constante de dependência abjeta a uma Divindade vista como a única fonte de poder faz com que um homem perca toda autoconfiança e o impulso para a atividade e a iniciativa. Tendo começado por criar um pai e guia para si, ele se torna como um menino e permanece assim até a idade avançada, esperando ser conduzido pela mão tanto nos pequenos como nos grandes acontecimentos da vida. O ditado “Ajuda a ti mesmo e Deus te ajudará” é interpretado por ele de tal maneira que, quando um empreendimento resulta de modo vantajoso, ele credita isso apenas a si mesmo; quando é um fracasso, ele atribui isto à vontade de seu Deus. (.....) Os pecados de vocês? O maior é atribuir a Deus a tarefa de libertá-los deles. Esta não é uma piedade meritória, mas uma debilidade egoísta e indolente. Ainda que a vaidade possa sussurrar o contrário, preste atenção apenas a seu bom senso.” [1]
Ou seja, enquanto houver crença em um deus monoteísta, não pode haver uma compreensão cabal de que o principal templo é nossa própria consciência, e que a grande divindade, invisível e impessoal, é Atma, o princípio universal presente neste Templo e também fora dele. Este princípio é imparcial. Ele não manipula os fatos. Ele não faz favores, nem não pode ser comprado ou subornado com homenagens, velas acesas, elogios, missas, cultos, orações, pedidos, novenas, procissões ou promessas.
No caminho da felicidade, vale, isso sim, o ensinamento do Jesus do Novo Testamento: o que se planta, se colhe. Vale a lei do carma, e não o suposto favor pessoal de deuses monoteístas imaginários. É deste modo que a humanidade cresce. Pode ser difícil desafiar e abandonar as ilusões: mas não há outro caminho.
NOTA:
[1] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, Primeira Série, Carta 43.
Raja Ioga Propõe a Auto-Libertação
Liberdade Resulta do Exercício da Responsabilidade Cármica
A teosofia - assim como a Raja Ioga - propõe o caminho da autonomia do aprendiz. Os obstáculos que impedem a felicidade de cada indivíduo devem ser afastados do seu caminho por ele mesmo e por mérito próprio. Ele próprio criou os obstáculos, e, portanto, a tarefa de afastá-los pertence a ele. Este é o ensinamento da lei do carma.
O processo pelo qual o indivíduo humano cria sempre a cada momento as circunstâncias do seu futuro passa pelo encadeamento constante dos pensamentos entre si, através de hábitos e padrões estabelecidos. Estes hábitos, porém, estão sujeitos à alteração através da força de vontade.
Um Mestre explica como se dá o mecanismo:
“....Cada pensamento do homem, ao ser produzido, passa ao mundo interno e se torna uma entidade ativa associando-se - amalgamando-se, poderíamos dizer - com um elemental, isto é, com uma das forças semi-inteligentes dos reinos. Ele sobrevive como inteligência ativa - uma criatura gerada pela mente - por um período mais curto ou mais longo, proporcionalmente à intensidade da ação cerebral que o gerou. Desse modo um bom pensamento é perpetuado como força ativa e benéfica, um mau pensamento como demônio maléfico. Assim, o homem está constantemente ocupando sua corrente no espaço com seu próprio mundo, um mundo povoado com a prole de suas fantasias, desejos, impulsos e paixões; uma corrente que reage sobre qualquer organização sensível ou nervosa que entre em contato com ela na proporção da sua intensidade dinâmica. A isto os budistas chamam ‘Skandha’. Os hindus lhe dão o nome de ‘Carma’. O adepto produz essas formas conscientemente; os outros homens as atiram fora inconscientemente.” [1]
NOTA:
[1] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Brasília, volume II, p. 343, Primeira Carta para A.O.Hume.
Trocando Dogmas por Autoconfiança
Combinando Independência Pessoal Com Compaixão Universal
Para a teosofia original, o estudante deve combinar independência pessoal com solidariedade. Ele deve reunir em si auto-responsabilidade e compaixão universal. Nenhum mestre tem como função salvar o aprendiz dos seus próprios erros, ou das consequência dos seus erros no passado. A função do mestre é dar elementos para que o discípulo liberte a si próprio.
Nos trechos a seguir, tirados de cartas dos Mestres, vemos os princípios pedagógicos seguidos pelos instrutores autênticos:
* “... Você tem uma carta minha em que explico por que nós nunca guiamos nossos chelas (mesmo os mais avançados); nem os avisamos antecipadamente, mas deixamos que os efeitos produzidos pelas causas criadas por eles ensinem-lhes uma melhor experiência.” [1]
* “Você está pronta para fazer a sua parte no grande trabalho da filantropia? Você ofereceu-se para a Cruz Vermelha; mas, Irmã [2] , existem doenças e feridas da alma que não podem ser curadas pela arte de nenhum cirurgião. Irá auxiliar-nos a ensinar à humanidade que os doentes-da-alma devem curar-se a si próprios? Sua ação será sua resposta.” [3]
* “Todo ser humano contém dentro de si vastas potencialidades, e é dever dos adeptos rodear o possível chela com circunstâncias que o capacitarão para tomar o “caminho da direita” - se ele tiver a capacidade dentro de si. Não temos o direito de retirar a chance de um postulante, assim como não podemos guiá-lo e dirigi-lo pelo caminho correto. Na melhor das hipóteses, podemos apenas mostrar a ele - depois que seu período de provação terminou exitosamente - que se ele fizer isso irá bem; se fizer aquilo, irá mal. Mas até que ele haja passado por esse período, nós deixamos que ele trave suas batalhas do melhor modo que puder; e temos que fazer o mesmo ocasionalmente com chelas mais adiantados e iniciados, como H.P.B., uma vez que lhes é permitido trabalhar no mundo, o que todos nós evitamos mais ou menos. E além disso (.....) nós deixamos que nossos candidatos sejam tentados de mil maneiras diferentes, de modo que venha para fora a totalidade da sua natureza interna, e deixamos a esta a possibilidade de vencer de uma maneira ou de outra. (.....) Todos nós somos testados dessa maneira (.....).” [4]
Ao analisar certos erros cometidos por Helena Blavatsky, um Mestre escreve:
“De acordo com nossas regras, (....) [o Mestre de H.P.B.] não tinha permissão para proibi-la claramente de fazer tal coisa. Ela tinha que ter total e inteira liberdade de ação, a liberdade de criar causas que se transformariam com o tempo no seu carrasco, seu pelourinho público. Ele podia, no máximo, proibi-la de produzir fenômenos, e ele recorria a este último recurso tão freqüentemente quanto podia, para grande insatisfação dos amigos dela e dos teosofistas.” [5]
A independência é essencial para que haja um real aprendizado, segundo explica um Mahatma:
“Você está completamente desinformado sobre o nosso sistema, e se eu pudesse torná-lo claro para você, haveria dez chances contra uma de que os seus “melhores sentimentos” - os sentimentos de um europeu - ficariam perturbados, ou algo pior, com uma disciplina tão “chocante”. O fato é que, até a última e suprema iniciação, todo chela - (e mesmo alguns adeptos) - é deixado com seus recursos e opinião próprios. Temos que enfrentar nossas próprias batalhas, e o adágio familiar - “o adepto faz a si mesmo, ninguém o faz” - é verdadeiro literalmente. Já que cada um de nós é o criador e produtor das causas que levam a este ou àquele resultado, temos que colher apenas aquilo que semeamos. Nossos chelas são ajudados apenas quando são inocentes das causas que os colocaram em dificuldades; quando tais causas são geradas por influências alheias, externas. A vida e a luta pelo adeptado seriam demasiado fáceis, se todos tivéssemos limpadores atrás de nós varrendo para longe os efeitos que geramos através da nossa imprudência e presunção. (.....) Assim, passo a passo, e depois de uma série de punições, o chela aprende pela amarga experiência a suprimir e guiar seus impulsos; ele perde sua imprudência, sua auto-suficiência, e nunca cai nos mesmos erros.” [6]
No discipulado, o aprendiz deve optar entre dois caminhos:
“Um chela em provação tem permissão para pensar e fazer o que quiser. Ele é advertido e informado previamente: ‘Você será tentado e enganado pelas aparências; dois caminhos se abrirão diante de você, os dois levando à meta que você está tentando alcançar; um, fácil, e este o levará mais rapidamente ao cumprimento das ordens que você pode receber; o outro, mais árduo, mais longo; um caminho cheio de pedras e espinhos que o farão pisar em falso mais de uma vez; e no final do qual você pode, talvez, chegar a um fracasso, depois de tudo, e ser incapaz de executar as ordens dadas para um pequeno trabalho particular - mas, enquanto este caminho fará com que as dificuldades enfrentadas por você devido a ele sejam todas contabilizadas a seu favor a longo prazo, o outro, o caminho fácil, só pode oferecer a você uma gratificação momentânea, uma realização fácil da tarefa’.” [7]
O princípio pedagógico e filosófico da “autonomia do aprendiz” - para citar a expressão criada pelo educador brasileiro Paulo Freire - pode demorar ainda algum tempo até ser absorvido na prática e substituir, finalmente, as crenças dogmáticas. Ele deve ser adaptado e aplicado gradualmente a cada situação humana. Todos os seres são aprendizes, e cada momento da vida traz uma ou mais lições, para quem tem olhos para ver.
Quando o aprendizado consciente substituir finalmente os dogmas cegos, três axiomas fundamentais ficarão claros para o conjunto da humanidade:
I - “A alma do homem é imortal e o seu futuro é o de algo cujo crescimento e esplendor não têm limites”.
II- “O princípio que dá a vida mora em nós e fora de nós; é imortal e eternamente benéfico; não é ouvido, nem visto, nem apreendido pelo olfato, mas pode ser percebido pelo homem desejoso de o perceber”.
III - “Cada homem é o seu absoluto legislador, o dispensador da glória ou das trevas para si próprio; é o decretador de sua vida, recompensa e punição.” [8]
NOTAS:
[1] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Carta 95, vol. II, p. 151
[2] Na edição brasileira, vemos a palavra “Filha”. Porém vale o original em inglês, em que temos “Irmã”.
[3] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Carta 72, segunda série, p. 248.
[4] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 92, vol. II, pp. 97-98.
[5] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 92, vol. II, pp. 92-93.
[6] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 92, vol. II, p. 90-91.
[7] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 74, vol. I. p. 343.
[8] “Luz no Caminho”, M. Collins, Ed. Pensamento, SP, p. 27.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
A TEOSOFIA E A CRENÇA EM DEUS
Um Informe Especial Sobre o Monoteísmo
Os textos a seguir reproduzem a edição
especial de “O Teosofista” de fevereiro
de 2010, dedicada a examinar o processo
pelo qual a crença em um deus monoteísta
e a religiosidade dogmática devem dar
lugar, hoje, a uma pedagogia espiritual
baseada na independência solidária.
Raja Ioga Trabalha com o Conceito de Lei Universal
Sábios Orientais Não Conhecem Deus
Os Seus Discípulos Devem Avançar Com Independência
Um Estudante de Teosofia
“..... Nós negamos Deus como filósofos e como budistas.”
[Da Carta 88 de “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Vol. II, p. 54]
Um número crescente de pessoas examina hoje a origem e a história da noção de Deus, e compreende que os deuses Criadores e Salvadores das diferentes religiões populares foram, sempre, inventados pelos próprios seres humanos.
A credulidade religiosa dos povos não sustenta só as ilusões teológicas e as castas sacerdotais. Ela também justifica e legitima a guerra, o terror, o armamentismo, a escravização das mentes e outras formas de desrespeito à vida. O que está em jogo, pois, não é um mero debate teórico entre os seguidores desta ou daquela tese, mas o futuro da atual civilização. A violência no Afeganistão, no Paquistão, no Oriente Médio e ao redor do mundo não é obra do acaso. O ódio entre povos e religiões tem um fundo cultural, e resulta de uma visão teológica e monoteísta do mundo.
A violência e até a proliferação nuclear feitas em nome de Deus estão na pauta das reuniões da ONU. Elas também são discutidas diariamente nos meios de comunicação. Mas a agressão que surge da fé em deus nem sempre chega ao nível político-militar. Ela pode ser mais sutil, como quando promove, por exemplo, a dominação mental e a cegueira voluntária de milhões de pessoas.
A força atual da credulidade supersticiosa resulta da pouca popularização, durante o século 20, da filosofia esotérica oriental e das diversas filosofias universalistas. Isso torna mais difícil, e mais importante, o desafio da primeira metade do século 21.
A crise global de hoje deve ser olhada de frente. Ela é ao mesmo tempo ética, geológica, financeira, política, espiritual, e, potencialmente, militar-nuclear. Nesta situação, a iniciativa positiva deveria vir dos países cristãos. O cristianismo lidera a civilização. Há milhões de cristãos sinceros. Os cidadãos ocidentais deveriam ser os primeiros a romper com as antigas superstições forjadas durante a idade média. Eles deveriam resgatar por iniciativa própria aquela ética universal que permite ver além dos dogmas e que nos capacita para reconhecer como irmãos todos os povos. Abandonando as superstições, os cidadãos de todo o mundo perceberão a unidade interdisciplinar que permeia as diferentes culturas, religiões e filosofias, e também poderão ver as imperfeições de cada uma delas. Abrir espaço para esta nova visão das coisas é uma tarefa prática.
Como parte da reflexão a este respeito, transcrevemos a seguir cinco trechos de um dos documentos mais extraordinários da filosofia esotérica de todos os tempos. Escrito em 1882, o texto está publicado como Carta 88 na coletânea de “Cartas dos Mahatmas”. Nele, um Raja Iogue explica a posição da filosofia esotérica diante da questão de Deus.[1] Diz o Mestre:
1) Causas e Efeitos.
“Nem a nossa filosofia, nem nós próprios acreditamos em um Deus, e muito menos em um Deus cujo pronome necessita uma inicial maiúscula. Nossa filosofia se encaixa na definição de Hobbes. Ela é preeminentemente a ciência dos efeitos pelas causas e das causas por seus efeitos, e já que ela é também a ciência das coisas surgidas do primeiro princípio, segundo a definição de Bacon, antes de admitir qualquer primeiro princípio devemos conhecê-lo, sem o que não temos o direito de admitir nem mesmo sua possibilidade.” (páginas 53-54)
2) A Verdade Sem Meios-Termos.
“Nossa doutrina não conhece meios-termos. Ela afirma ou nega, porque só ensina aquilo que sabe que é a verdade. Portanto, nós negamos Deus como filósofos e como budistas. Sabemos que há vidas planetárias e outras vidas espirituais, e sabemos que em nosso sistema solar não existe coisa tal como Deus, seja pessoal ou impessoal. Parabrahm não é um Deus, mas a lei absoluta imutável, e Ishwar é o efeito de Avidya e Maya, ignorância baseada na grande ilusão. A palavra ‘Deus’ foi inventada para designar a causa desconhecida daqueles efeitos que o homem tem admirado ou temido sem entender, e já que nós alegamos e somos capazes de comprovar o que alegamos - isto é, que conhecemos aquela causa e outras causas - temos condições de sustentar que não há Deus ou Deuses atrás daqueles efeitos.” (página 54)
3) Deus é um Bicho-Papão.
“A idéia de Deus não é uma noção inata, mas adquirida, e nós só temos uma coisa em comum com as teologias - nós revelamos o infinito. Mas enquanto atribuímos causas materiais, naturais, sensíveis e conhecidas (por nós, pelo menos) a todos os fenômenos que procedem do espaço, da duração e do movimento infinitos e ilimitados, os teístas atribuem a eles causas espirituais, sobre-naturais, ininteligíveis e desconhecidas. O Deus dos teólogos é simplesmente um poder imaginário, un loup garou [bicho-papão] na expressão de d’Holbach - um poder que até agora nunca se manifestou. Nossa principal meta é libertar a humanidade deste pesadelo, ensinar ao homem a virtude pelo bem da virtude, e ensiná-lo a caminhar pela vida confiando em si mesmo, ao invés de depender de uma muleta teológica que por eras incontáveis foi a causa direta de quase toda a miséria humana.” (páginas 54-55)
4) A Vida Una Inclui o Mundo Material.
“Podemos ser chamados de panteístas - de agnósticos, NUNCA. Se as pessoas estiverem dispostas a aceitar e a ver como Deus nossa VIDA UNA, imutável e inconsciente em sua eternidade, poderão fazê-lo e assim manter mais um gigantesco equívoco de denominação. Mas então terão de dizer como Spinoza que não há e não podemos conceber qualquer outra substância além de Deus, conforme aquele famoso e infeliz filósofo [2] diz em sua décima-quarta proposição: “praeter Deum neque dari neque concipi potest substantia” - e assim tornarem-se panteístas... Quem, exceto um teólogo formado no mistério e no mais absurdo sobrenaturalismo pode imaginar um ser auto-existente, necessariamente infinito e onipresente, fora do universo manifestado que não tem fronteiras? A palavra infinito é apenas uma negativa que exclui a idéia de limites. É evidente que um ser independente e onipresente não pode estar limitado por nada que seja externo a ele; que não pode haver nada externo a ele - nem mesmo um vácuo; portanto, onde haverá espaço para a matéria? Para aquele universo manifestado, mesmo que este último seja limitado? Se perguntarmos aos teístas se o Deus deles é vácuo, espaço ou matéria, eles responderão que não. E no entanto eles sustentam que o Deus deles penetra a matéria embora ele próprio não seja matéria. Quando nós falamos da nossa Vida Una, também dizemos que ela não só penetra, mas é a essência de cada átomo de matéria; e que, portanto, ela não apenas tem correspondência com a matéria mas possui também todas as suas propriedades, etc. - conseqüentemente, é material, é a própria matéria.” (página 55)
5) Crença em Deus Produz Sofrimento Desnecessário.
“....Direi a você qual é a maior, a principal causa de cerca de dois terços dos males que perseguem a humanidade desde que esta causa se tornou um poder. É a casta sacerdotal, o clero e as igrejas; é nestas ilusões que o homem vê como sagradas, que ele deve procurar a fonte daquele sem-número de males, que é a grande maldição da humanidade e que quase domina totalmente o gênero humano. A ignorância criou os Deuses e a astúcia aproveitou a oportunidade. Veja a Índia, veja a Cristandade, o Islamismo, o Judaísmo e o fetichismo. Foi a impostura dos cleros que fez com que estes Deuses passassem a ser tão terríveis para o homem; é a religião que o transforma no beato egoísta, no fanático que odeia toda a humanidade fora da sua própria seita, sem torná-lo em nada melhor ou mais moral por isso. É a crença em Deus e nos Deuses que faz de dois terços da humanidade escravos de um punhado daqueles que os enganam com o falso pretexto de salvá-los. O homem não está sempre pronto a cometer qualquer tipo de maldade se lhe disserem que seu Deus ou Deuses exigem o crime – vítima voluntária de um Deus ilusório, escravo abjeto de seus ministros astuciosos? Os camponeses irlandeses, italianos e eslavos passarão fome, e verão suas famílias famintas e sem roupa, para alimentar e vestir seu padre e seu papa. Durante dois mil anos a Índia gemeu sob o peso das castas, com os brâmanes engordando só a si mesmos com o melhor da terra, e hoje os seguidores de Cristo e os de Maomé estão cortando as gargantas uns dos outros em nome – e para maior glória – dos seus respectivos mitos. Lembre que a soma da miséria humana nunca será diminuída até aquele dia em que a parte melhor da humanidade destruir, em nome da Verdade, da moralidade e da caridade universal, os altares dos seus falsos deuses.” (páginas 61-62)
NOTAS:
[1] “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, Editora Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, ver volume II, Carta 88. Os números das páginas são indicados entre parênteses ao final de cada trecho. A íntegra da Carta 88 está publicada em www.filosofiaesoterica.com sob o título “Deus Pessoal ou Lei Universal?”, e pode ser facilmente localizada no website através da Lista de Textos por Ordem Alfabética.
[2] Benedictus de Spinoza foi perseguido por suas idéias filosóficas mesmo na Holanda do século 17, conhecida por seu clima de liberdade religiosa. Sua principal obra, “Ética”, não pôde ser publicada enquanto ele viveu. Foi acusado de ateísmo e considerado um herege pela comunidade judaica. A décima-quarta proposição mencionada a seguir pelo Mestre pertence à parte I, “De Deus”, do seu famoso tratado sobre a Ética (publicado no Brasil pela Ed. Ediouro). (Nota da edição brasileira de “Cartas dos Mahatmas”)
Superstição Monoteísta Tornou-se Anacrônica
Do Monoteísmo para o Universalismo
Século 21 Pode Trazer a Fraternidade Planetária
Por toda parte e desde a mais remota antiguidade, o homem criou Deus à sua própria imagem e semelhança, e não o contrário. As ideologias monoteístas fortalecem a intolerância. Desde que elas passaram a dominar, não têm faltado tentativas de assegurar-se a posse exclusiva do mundo divino por parte de diferentes povos, cujos deuses, convenientemente, autorizam a matar e a maltratar sem dó nem piedade os “infiéis”, os “hereges” e os “descrentes”.
O deus dos cristãos seria, supostamente, “o único existente”. Esta pretensão pouco modesta justificou o desrespeito e a perseguição não só dos judeus, mas dos povos indígenas das Américas, da África e da Ásia. Na verdade o deus dos cristãos é uma cópia e uma versão romanizada do deus judaico, que, por sua vez, também é supostamente “único”, tenha sido tomado e adaptado de povos e tribos ainda mais antigos. Ao invés de agradecer aos hebreus por tomar-lhes emprestado o seu Deus e a sua escritura, os cristãos perseguiram os seguidores de Jeová durante quase dois mil anos. Tentaram eliminá-los como povo e como cultura, pela intimidação, pela assimilação forçada, e pela violência física. Talvez por isso Adolf Hitler nunca tenha sido excomungado, e nem sequer criticado pelo Papa, antes da sua derrota militar. Na área do desrespeito aos direitos humanos, Adolf Hitler e os papas tinham muito em comum.
O deus muçulmano é uma criação mais recente que a divindade monoteísta cristã. Ele também é apresentado como o único deus que existe, mas, na prática, ele é um irmão mais jovem do deus que hoje é controlado - em suas diversas versões - pelas igrejas católicas, ortodoxas, protestantes e luteranas.
A verdade é que, desde a mais remota antiguidade, cada povo tem produzido sempre os seus mitos simbólicos e divinos com base na mitologia herdada de povos mais antigos. Helena P. Blavatsky escreveu em “A Doutrina Secreta”:
“Não é o Uno Desconhecido e sempre presente Deus na Natureza, ou Natureza in abscondito, que é rejeitado, mas o Deus do dogma humano e a sua “Palavra” humanizada. Com sua infinita presunção e seu orgulho e vaidade inerentes, o homem criou ele próprio o seu Deus com sua mão sacrílega a partir dos materiais que encontrou em sua pequena estrutura cerebral, e o impôs à humanidade como se fosse uma revelação direta do ESPAÇO uno e não revelado.” [1]
A “Carta do Grande Mestre” - também conhecida na literatura esotérica como “Carta do Chohan” - descreve o programa de ação de longo prazo do movimento teosófico. Ali podemos ler a seguinte profecia, cujo cumprimento deverá ocorrer com ajuda ativa do movimento esotérico autêntico:
“As doutrinas fundamentais de todas as religiões se comprovarão idênticas em seu significado esotérico, uma vez que sejam desagrilhoadas e libertadas do peso morto representado pelas interpretações dogmáticas, dos nomes pessoais, das concepções antropomórficas e dos sacerdotes assalariados. Osíris, Krishna, Buda e Cristo serão apresentados como nomes diferentes de uma mesma estrada real para a bem-aventurança final, o Nirvana.”
E a carta do Chohan prossegue:
“O Cristianismo místico, isto é, aquele Cristianismo que ensina a autolibertação através do nosso próprio sétimo princípio - o Para-Atma (Augoeides) libertado, chamado por alguns de Cristo, por outros, de Buda, e equivalente à regeneração ou renascimento em espírito - será visto como exatamente a mesma verdade do Nirvana do Budismo. Todos nós temos de nos livrar de nosso próprio Ego, o ser ilusório e aparente, a fim de reconhecer nosso verdadeiro ser em uma vida divina transcendental. Mas, se não formos egoístas, devemos esforçar-nos e fazer com que outras pessoas vejam essa verdade, e reconheçam a realidade desse ser transcendental, o Buda, Cristo ou Deus de cada pregador. Esta é a razão por que mesmo o Budismo exotérico é o caminho mais seguro para conduzir os homens em direção à única verdade esotérica. Do modo como se encontra o mundo agora, seja cristão, muçulmano ou pagão, a justiça é desconsiderada, enquanto a honra e a piedade são atiradas ao vento.”
Mais adiante, o documento afirma:
“O mundo em geral, e especialmente a cristandade, abandonado por dois mil anos ao regime de um Deus pessoal, bem como a seus sistemas políticos e sociais baseados nessa idéia, provou agora ser um fracasso.” [2]
De fato, as religiões supersticiosas não produziram ética, nem paz, nem justiça social. Tampouco estabeleceram um convívio equilibrado com o meio ambiente natural. Elas deixaram de servir à evolução humana, e algo melhor do que elas está surgindo agora, gradualmente. O processo de nascimento da visão pós-dogmática e universalista do mundo deverá acelerar-se nos séculos 21 e 22.
NOTAS:
[1] “A Doutrina Secreta”, H.P. Blavatsky, Ed. Pensamento, edição em seis volumes, ver volume I, p. 77. Na edição original, “The Secret Doctrine”, H. P. Blavatsky, Theosophy Co., Los Angeles, 1982, volume I, p. 9.
[2] O texto “A Carta do Grande Mestre” pode ser localizado através da “Lista de Textos por Ordem Alfabética”, no website www.filosofiaesoterica.com. Para localizar o documento através da Lista de Textos por Autor, busque-se como autor “Um Mahatma dos Himalaias”.
A Dimensão Sutil da Crença em Deus
Espíritos Anti-Evolutivos Animam as Crenças Religiosas Dogmáticas
A crença popular no Deus pessoal, vingativo, rancoroso e temível que é imaginado pelas igrejas e religiões convencionais constitui uma causa desnecessária de sofrimento humano, segundo alerta a Carta 88 das “Cartas dos Mahatmas”.
A julgar pelas ações dos seus sacerdotes, este deus justifica mentir, matar e oprimir, sempre que tais crimes sejam feitos - pelo menos nominalmente - para maior glória dele próprio.
No entanto, isso não é tudo. Não basta perceber apenas este mecanismo da credulidade dos povos. Um documento incluído em “Cartas dos Mahatmas” mostra um aspecto mais sutil, e amplamente desconhecido, do processo da crença em deus. Trata-se da Carta número 30, no volume I, que inclui uma mensagem colocada no papel por H.P. Blavatsky, sob ditado do mestre dela.
O texto ditado revela que os deuses das religiões dogmáticas são de fato energias sutis animadas por espíritos planetários anti-evolutivos, cuja função cármica é evitar que a Vitória da Sabedoria Universal no coração humano ocorra de modo prematuro. O Mestre designa tais espíritos planetários atrasados pelo nome de Ma-Mo Chohans.
Na mesma Carta 30, o Mahatma explica por que motivo um Raja-Iogue não pode ajudar em sua caminhada a quem crê em superstições como “Deus” e “Deuses” no sentido dogmático. Tal crença destrói as possibilidades de uma afinidade magnética, porque fecha a aura do indivíduo para a expansão de consciência que constitui a substância do caminho espiritual.
Diz a Carta 30:
“A fé em Deuses ou em Deus e outras superstições atraem milhões de influências alheias, entidades vivas e poderosos agentes para perto das pessoas, e nos veríamos obrigados a usar algo mais que o exercício comum de poder para afastá-los. Nós decidimos não fazê-lo. Não consideramos necessário nem proveitoso perder o nosso tempo travando uma guerra com planetários [1] atrasados que se deliciam personificando deuses e, às vezes, personagens famosos que viveram na terra. Existem Dhyan-Chohans, e 'Chohans das Trevas', não o que eles chamam de diabos, mas 'Inteligências' imperfeitas que nunca nasceram nesta ou em qualquer outra terra ou esfera, tanto quanto os 'Dhyan-Chohans', e que nunca farão parte dos 'construtores do Universo', as Inteligências Planetárias puras que presidem cada Manvantara, enquanto que os Chohans das Trevas presidem os Pralayas. Explique isso ao sr. Sinnett (EU NÃO POSSO) – diga-lhe que leia de novo o que disse a eles nas poucas coisas que expliquei ao sr. Hume, e que ele se lembre de que, assim como tudo neste universo é contraste (não posso traduzi-lo melhor) assim também a luz dos Dhyan Chohans e sua inteligência pura é contrastada pelos 'Ma-Mo Chohans' – e sua inteligência destrutiva. Esses são os deuses que hindus, cristãos, maometanos e todos os demais integrantes de religiões e seitas intolerantes fanáticas adoram; e enquanto a sua influência se fizer sentir sobre os seus devotos, não nos ocorreria a idéia de associar-nos a eles nem de opor-nos a seu trabalho, do mesmo modo como em relação aos Gorros Vermelhos [2] na terra, cujos resultados maléficos tratamos de diminuir, mas com cujo trabalho não temos direito de imiscuir-nos, enquanto eles não se interpuserem em nosso caminho.”
Depois desta mensagem ditada pelo raja-iogue, Helena Blavatsky prossegue na carta acrescentando uma explicação sua. Ela diz o seguinte (colocamos alguns termos explicativos entre colchetes, em itálico e sublinhados) :
“Aqui (...) [o Mestre] quer dizer que eles não têm o direito, nem o poder, de ir contra a natureza, ou contra aquele trabalho que foi destinado pela lei da natureza para cada tipo de seres ou coisas existentes. Os Irmãos [os Mahatmas] , por exemplo, podem (....) até certo grau reduzir o mal e aliviar o sofrimento: mas não podem destruir o mal. Do mesmo modo os Dhyan Chohans [espíritos planetários evolutivos, que trabalham pela libertação humana] não podem impedir o trabalho dos Mamo Chohans, pois a Lei destes é trevas, ignorância, destruição, etc., assim como a Lei dos primeiros é Luz, conhecimento e criação. Os Dhyans Chohans respondem a Buddh, Sabedoria Divina e Vida em conhecimento abençoado, e os Ma-mos são a corporificação na natureza de Shiva, Jeová e outros monstros inventados, que têm a ignorância como seguidora.”
Vemos assim que, de acordo com a filosofia esotérica, há de fato algo “real” que interage no plano sutil com as seitas religiosas cuja base é o dogmatismo e a crença ritualista. Este “algo” são espíritos planetários anti-evolutivos.
A tarefa da teosofia - e a filosofia ocidental clássica sempre apontou no mesmo sentido - é libertar a humanidade do pensamento supersticioso que procura perpetuar a ignorância.
NOTAS:
[1] Isto é, espíritos planetários. (N. ed. bras.)
[2] Seita asiática cujo trabalho é contrário à evolução espiritual. (N. ed. bras.)
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Dependência Teológica Destrói Autoconfiança
A Crença Como Problema Pedagógico
Um Mahatma explicou os motivos psicológicos pelos quais a crença supersticiosa em um Deus Monoteísta obstaculiza o aprendizado espiritual. Diz o Mestre:
“Um sentimento constante de dependência abjeta a uma Divindade vista como a única fonte de poder faz com que um homem perca toda autoconfiança e o impulso para a atividade e a iniciativa. Tendo começado por criar um pai e guia para si, ele se torna como um menino e permanece assim até a idade avançada, esperando ser conduzido pela mão tanto nos pequenos como nos grandes acontecimentos da vida. O ditado “Ajuda a ti mesmo e Deus te ajudará” é interpretado por ele de tal maneira que, quando um empreendimento resulta de modo vantajoso, ele credita isso apenas a si mesmo; quando é um fracasso, ele atribui isto à vontade de seu Deus. (.....) Os pecados de vocês? O maior é atribuir a Deus a tarefa de libertá-los deles. Esta não é uma piedade meritória, mas uma debilidade egoísta e indolente. Ainda que a vaidade possa sussurrar o contrário, preste atenção apenas a seu bom senso.” [1]
Ou seja, enquanto houver crença em um deus monoteísta, não pode haver uma compreensão cabal de que o principal templo é nossa própria consciência, e que a grande divindade, invisível e impessoal, é Atma, o princípio universal presente neste Templo e também fora dele. Este princípio é imparcial. Ele não manipula os fatos. Ele não faz favores, nem não pode ser comprado ou subornado com homenagens, velas acesas, elogios, missas, cultos, orações, pedidos, novenas, procissões ou promessas.
No caminho da felicidade, vale, isso sim, o ensinamento do Jesus do Novo Testamento: o que se planta, se colhe. Vale a lei do carma, e não o suposto favor pessoal de deuses monoteístas imaginários. É deste modo que a humanidade cresce. Pode ser difícil desafiar e abandonar as ilusões: mas não há outro caminho.
NOTA:
[1] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, Primeira Série, Carta 43.
Raja Ioga Propõe a Auto-Libertação
Liberdade Resulta do Exercício da Responsabilidade Cármica
A teosofia - assim como a Raja Ioga - propõe o caminho da autonomia do aprendiz. Os obstáculos que impedem a felicidade de cada indivíduo devem ser afastados do seu caminho por ele mesmo e por mérito próprio. Ele próprio criou os obstáculos, e, portanto, a tarefa de afastá-los pertence a ele. Este é o ensinamento da lei do carma.
O processo pelo qual o indivíduo humano cria sempre a cada momento as circunstâncias do seu futuro passa pelo encadeamento constante dos pensamentos entre si, através de hábitos e padrões estabelecidos. Estes hábitos, porém, estão sujeitos à alteração através da força de vontade.
Um Mestre explica como se dá o mecanismo:
“....Cada pensamento do homem, ao ser produzido, passa ao mundo interno e se torna uma entidade ativa associando-se - amalgamando-se, poderíamos dizer - com um elemental, isto é, com uma das forças semi-inteligentes dos reinos. Ele sobrevive como inteligência ativa - uma criatura gerada pela mente - por um período mais curto ou mais longo, proporcionalmente à intensidade da ação cerebral que o gerou. Desse modo um bom pensamento é perpetuado como força ativa e benéfica, um mau pensamento como demônio maléfico. Assim, o homem está constantemente ocupando sua corrente no espaço com seu próprio mundo, um mundo povoado com a prole de suas fantasias, desejos, impulsos e paixões; uma corrente que reage sobre qualquer organização sensível ou nervosa que entre em contato com ela na proporção da sua intensidade dinâmica. A isto os budistas chamam ‘Skandha’. Os hindus lhe dão o nome de ‘Carma’. O adepto produz essas formas conscientemente; os outros homens as atiram fora inconscientemente.” [1]
NOTA:
[1] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Brasília, volume II, p. 343, Primeira Carta para A.O.Hume.
Trocando Dogmas por Autoconfiança
Combinando Independência Pessoal Com Compaixão Universal
Para a teosofia original, o estudante deve combinar independência pessoal com solidariedade. Ele deve reunir em si auto-responsabilidade e compaixão universal. Nenhum mestre tem como função salvar o aprendiz dos seus próprios erros, ou das consequência dos seus erros no passado. A função do mestre é dar elementos para que o discípulo liberte a si próprio.
Nos trechos a seguir, tirados de cartas dos Mestres, vemos os princípios pedagógicos seguidos pelos instrutores autênticos:
* “... Você tem uma carta minha em que explico por que nós nunca guiamos nossos chelas (mesmo os mais avançados); nem os avisamos antecipadamente, mas deixamos que os efeitos produzidos pelas causas criadas por eles ensinem-lhes uma melhor experiência.” [1]
* “Você está pronta para fazer a sua parte no grande trabalho da filantropia? Você ofereceu-se para a Cruz Vermelha; mas, Irmã [2] , existem doenças e feridas da alma que não podem ser curadas pela arte de nenhum cirurgião. Irá auxiliar-nos a ensinar à humanidade que os doentes-da-alma devem curar-se a si próprios? Sua ação será sua resposta.” [3]
* “Todo ser humano contém dentro de si vastas potencialidades, e é dever dos adeptos rodear o possível chela com circunstâncias que o capacitarão para tomar o “caminho da direita” - se ele tiver a capacidade dentro de si. Não temos o direito de retirar a chance de um postulante, assim como não podemos guiá-lo e dirigi-lo pelo caminho correto. Na melhor das hipóteses, podemos apenas mostrar a ele - depois que seu período de provação terminou exitosamente - que se ele fizer isso irá bem; se fizer aquilo, irá mal. Mas até que ele haja passado por esse período, nós deixamos que ele trave suas batalhas do melhor modo que puder; e temos que fazer o mesmo ocasionalmente com chelas mais adiantados e iniciados, como H.P.B., uma vez que lhes é permitido trabalhar no mundo, o que todos nós evitamos mais ou menos. E além disso (.....) nós deixamos que nossos candidatos sejam tentados de mil maneiras diferentes, de modo que venha para fora a totalidade da sua natureza interna, e deixamos a esta a possibilidade de vencer de uma maneira ou de outra. (.....) Todos nós somos testados dessa maneira (.....).” [4]
Ao analisar certos erros cometidos por Helena Blavatsky, um Mestre escreve:
“De acordo com nossas regras, (....) [o Mestre de H.P.B.] não tinha permissão para proibi-la claramente de fazer tal coisa. Ela tinha que ter total e inteira liberdade de ação, a liberdade de criar causas que se transformariam com o tempo no seu carrasco, seu pelourinho público. Ele podia, no máximo, proibi-la de produzir fenômenos, e ele recorria a este último recurso tão freqüentemente quanto podia, para grande insatisfação dos amigos dela e dos teosofistas.” [5]
A independência é essencial para que haja um real aprendizado, segundo explica um Mahatma:
“Você está completamente desinformado sobre o nosso sistema, e se eu pudesse torná-lo claro para você, haveria dez chances contra uma de que os seus “melhores sentimentos” - os sentimentos de um europeu - ficariam perturbados, ou algo pior, com uma disciplina tão “chocante”. O fato é que, até a última e suprema iniciação, todo chela - (e mesmo alguns adeptos) - é deixado com seus recursos e opinião próprios. Temos que enfrentar nossas próprias batalhas, e o adágio familiar - “o adepto faz a si mesmo, ninguém o faz” - é verdadeiro literalmente. Já que cada um de nós é o criador e produtor das causas que levam a este ou àquele resultado, temos que colher apenas aquilo que semeamos. Nossos chelas são ajudados apenas quando são inocentes das causas que os colocaram em dificuldades; quando tais causas são geradas por influências alheias, externas. A vida e a luta pelo adeptado seriam demasiado fáceis, se todos tivéssemos limpadores atrás de nós varrendo para longe os efeitos que geramos através da nossa imprudência e presunção. (.....) Assim, passo a passo, e depois de uma série de punições, o chela aprende pela amarga experiência a suprimir e guiar seus impulsos; ele perde sua imprudência, sua auto-suficiência, e nunca cai nos mesmos erros.” [6]
No discipulado, o aprendiz deve optar entre dois caminhos:
“Um chela em provação tem permissão para pensar e fazer o que quiser. Ele é advertido e informado previamente: ‘Você será tentado e enganado pelas aparências; dois caminhos se abrirão diante de você, os dois levando à meta que você está tentando alcançar; um, fácil, e este o levará mais rapidamente ao cumprimento das ordens que você pode receber; o outro, mais árduo, mais longo; um caminho cheio de pedras e espinhos que o farão pisar em falso mais de uma vez; e no final do qual você pode, talvez, chegar a um fracasso, depois de tudo, e ser incapaz de executar as ordens dadas para um pequeno trabalho particular - mas, enquanto este caminho fará com que as dificuldades enfrentadas por você devido a ele sejam todas contabilizadas a seu favor a longo prazo, o outro, o caminho fácil, só pode oferecer a você uma gratificação momentânea, uma realização fácil da tarefa’.” [7]
O princípio pedagógico e filosófico da “autonomia do aprendiz” - para citar a expressão criada pelo educador brasileiro Paulo Freire - pode demorar ainda algum tempo até ser absorvido na prática e substituir, finalmente, as crenças dogmáticas. Ele deve ser adaptado e aplicado gradualmente a cada situação humana. Todos os seres são aprendizes, e cada momento da vida traz uma ou mais lições, para quem tem olhos para ver.
Quando o aprendizado consciente substituir finalmente os dogmas cegos, três axiomas fundamentais ficarão claros para o conjunto da humanidade:
I - “A alma do homem é imortal e o seu futuro é o de algo cujo crescimento e esplendor não têm limites”.
II- “O princípio que dá a vida mora em nós e fora de nós; é imortal e eternamente benéfico; não é ouvido, nem visto, nem apreendido pelo olfato, mas pode ser percebido pelo homem desejoso de o perceber”.
III - “Cada homem é o seu absoluto legislador, o dispensador da glória ou das trevas para si próprio; é o decretador de sua vida, recompensa e punição.” [8]
NOTAS:
[1] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Carta 95, vol. II, p. 151
[2] Na edição brasileira, vemos a palavra “Filha”. Porém vale o original em inglês, em que temos “Irmã”.
[3] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Carta 72, segunda série, p. 248.
[4] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 92, vol. II, pp. 97-98.
[5] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 92, vol. II, pp. 92-93.
[6] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 92, vol. II, p. 90-91.
[7] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 74, vol. I. p. 343.
[8] “Luz no Caminho”, M. Collins, Ed. Pensamento, SP, p. 27.
Os textos a seguir reproduzem a edição
especial de “O Teosofista” de fevereiro
de 2010, dedicada a examinar o processo
pelo qual a crença em um deus monoteísta
e a religiosidade dogmática devem dar
lugar, hoje, a uma pedagogia espiritual
baseada na independência solidária.
Raja Ioga Trabalha com o Conceito de Lei Universal
Sábios Orientais Não Conhecem Deus
Os Seus Discípulos Devem Avançar Com Independência
Um Estudante de Teosofia
“..... Nós negamos Deus como filósofos e como budistas.”
[Da Carta 88 de “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Vol. II, p. 54]
Um número crescente de pessoas examina hoje a origem e a história da noção de Deus, e compreende que os deuses Criadores e Salvadores das diferentes religiões populares foram, sempre, inventados pelos próprios seres humanos.
A credulidade religiosa dos povos não sustenta só as ilusões teológicas e as castas sacerdotais. Ela também justifica e legitima a guerra, o terror, o armamentismo, a escravização das mentes e outras formas de desrespeito à vida. O que está em jogo, pois, não é um mero debate teórico entre os seguidores desta ou daquela tese, mas o futuro da atual civilização. A violência no Afeganistão, no Paquistão, no Oriente Médio e ao redor do mundo não é obra do acaso. O ódio entre povos e religiões tem um fundo cultural, e resulta de uma visão teológica e monoteísta do mundo.
A violência e até a proliferação nuclear feitas em nome de Deus estão na pauta das reuniões da ONU. Elas também são discutidas diariamente nos meios de comunicação. Mas a agressão que surge da fé em deus nem sempre chega ao nível político-militar. Ela pode ser mais sutil, como quando promove, por exemplo, a dominação mental e a cegueira voluntária de milhões de pessoas.
A força atual da credulidade supersticiosa resulta da pouca popularização, durante o século 20, da filosofia esotérica oriental e das diversas filosofias universalistas. Isso torna mais difícil, e mais importante, o desafio da primeira metade do século 21.
A crise global de hoje deve ser olhada de frente. Ela é ao mesmo tempo ética, geológica, financeira, política, espiritual, e, potencialmente, militar-nuclear. Nesta situação, a iniciativa positiva deveria vir dos países cristãos. O cristianismo lidera a civilização. Há milhões de cristãos sinceros. Os cidadãos ocidentais deveriam ser os primeiros a romper com as antigas superstições forjadas durante a idade média. Eles deveriam resgatar por iniciativa própria aquela ética universal que permite ver além dos dogmas e que nos capacita para reconhecer como irmãos todos os povos. Abandonando as superstições, os cidadãos de todo o mundo perceberão a unidade interdisciplinar que permeia as diferentes culturas, religiões e filosofias, e também poderão ver as imperfeições de cada uma delas. Abrir espaço para esta nova visão das coisas é uma tarefa prática.
Como parte da reflexão a este respeito, transcrevemos a seguir cinco trechos de um dos documentos mais extraordinários da filosofia esotérica de todos os tempos. Escrito em 1882, o texto está publicado como Carta 88 na coletânea de “Cartas dos Mahatmas”. Nele, um Raja Iogue explica a posição da filosofia esotérica diante da questão de Deus.[1] Diz o Mestre:
1) Causas e Efeitos.
“Nem a nossa filosofia, nem nós próprios acreditamos em um Deus, e muito menos em um Deus cujo pronome necessita uma inicial maiúscula. Nossa filosofia se encaixa na definição de Hobbes. Ela é preeminentemente a ciência dos efeitos pelas causas e das causas por seus efeitos, e já que ela é também a ciência das coisas surgidas do primeiro princípio, segundo a definição de Bacon, antes de admitir qualquer primeiro princípio devemos conhecê-lo, sem o que não temos o direito de admitir nem mesmo sua possibilidade.” (páginas 53-54)
2) A Verdade Sem Meios-Termos.
“Nossa doutrina não conhece meios-termos. Ela afirma ou nega, porque só ensina aquilo que sabe que é a verdade. Portanto, nós negamos Deus como filósofos e como budistas. Sabemos que há vidas planetárias e outras vidas espirituais, e sabemos que em nosso sistema solar não existe coisa tal como Deus, seja pessoal ou impessoal. Parabrahm não é um Deus, mas a lei absoluta imutável, e Ishwar é o efeito de Avidya e Maya, ignorância baseada na grande ilusão. A palavra ‘Deus’ foi inventada para designar a causa desconhecida daqueles efeitos que o homem tem admirado ou temido sem entender, e já que nós alegamos e somos capazes de comprovar o que alegamos - isto é, que conhecemos aquela causa e outras causas - temos condições de sustentar que não há Deus ou Deuses atrás daqueles efeitos.” (página 54)
3) Deus é um Bicho-Papão.
“A idéia de Deus não é uma noção inata, mas adquirida, e nós só temos uma coisa em comum com as teologias - nós revelamos o infinito. Mas enquanto atribuímos causas materiais, naturais, sensíveis e conhecidas (por nós, pelo menos) a todos os fenômenos que procedem do espaço, da duração e do movimento infinitos e ilimitados, os teístas atribuem a eles causas espirituais, sobre-naturais, ininteligíveis e desconhecidas. O Deus dos teólogos é simplesmente um poder imaginário, un loup garou [bicho-papão] na expressão de d’Holbach - um poder que até agora nunca se manifestou. Nossa principal meta é libertar a humanidade deste pesadelo, ensinar ao homem a virtude pelo bem da virtude, e ensiná-lo a caminhar pela vida confiando em si mesmo, ao invés de depender de uma muleta teológica que por eras incontáveis foi a causa direta de quase toda a miséria humana.” (páginas 54-55)
4) A Vida Una Inclui o Mundo Material.
“Podemos ser chamados de panteístas - de agnósticos, NUNCA. Se as pessoas estiverem dispostas a aceitar e a ver como Deus nossa VIDA UNA, imutável e inconsciente em sua eternidade, poderão fazê-lo e assim manter mais um gigantesco equívoco de denominação. Mas então terão de dizer como Spinoza que não há e não podemos conceber qualquer outra substância além de Deus, conforme aquele famoso e infeliz filósofo [2] diz em sua décima-quarta proposição: “praeter Deum neque dari neque concipi potest substantia” - e assim tornarem-se panteístas... Quem, exceto um teólogo formado no mistério e no mais absurdo sobrenaturalismo pode imaginar um ser auto-existente, necessariamente infinito e onipresente, fora do universo manifestado que não tem fronteiras? A palavra infinito é apenas uma negativa que exclui a idéia de limites. É evidente que um ser independente e onipresente não pode estar limitado por nada que seja externo a ele; que não pode haver nada externo a ele - nem mesmo um vácuo; portanto, onde haverá espaço para a matéria? Para aquele universo manifestado, mesmo que este último seja limitado? Se perguntarmos aos teístas se o Deus deles é vácuo, espaço ou matéria, eles responderão que não. E no entanto eles sustentam que o Deus deles penetra a matéria embora ele próprio não seja matéria. Quando nós falamos da nossa Vida Una, também dizemos que ela não só penetra, mas é a essência de cada átomo de matéria; e que, portanto, ela não apenas tem correspondência com a matéria mas possui também todas as suas propriedades, etc. - conseqüentemente, é material, é a própria matéria.” (página 55)
5) Crença em Deus Produz Sofrimento Desnecessário.
“....Direi a você qual é a maior, a principal causa de cerca de dois terços dos males que perseguem a humanidade desde que esta causa se tornou um poder. É a casta sacerdotal, o clero e as igrejas; é nestas ilusões que o homem vê como sagradas, que ele deve procurar a fonte daquele sem-número de males, que é a grande maldição da humanidade e que quase domina totalmente o gênero humano. A ignorância criou os Deuses e a astúcia aproveitou a oportunidade. Veja a Índia, veja a Cristandade, o Islamismo, o Judaísmo e o fetichismo. Foi a impostura dos cleros que fez com que estes Deuses passassem a ser tão terríveis para o homem; é a religião que o transforma no beato egoísta, no fanático que odeia toda a humanidade fora da sua própria seita, sem torná-lo em nada melhor ou mais moral por isso. É a crença em Deus e nos Deuses que faz de dois terços da humanidade escravos de um punhado daqueles que os enganam com o falso pretexto de salvá-los. O homem não está sempre pronto a cometer qualquer tipo de maldade se lhe disserem que seu Deus ou Deuses exigem o crime – vítima voluntária de um Deus ilusório, escravo abjeto de seus ministros astuciosos? Os camponeses irlandeses, italianos e eslavos passarão fome, e verão suas famílias famintas e sem roupa, para alimentar e vestir seu padre e seu papa. Durante dois mil anos a Índia gemeu sob o peso das castas, com os brâmanes engordando só a si mesmos com o melhor da terra, e hoje os seguidores de Cristo e os de Maomé estão cortando as gargantas uns dos outros em nome – e para maior glória – dos seus respectivos mitos. Lembre que a soma da miséria humana nunca será diminuída até aquele dia em que a parte melhor da humanidade destruir, em nome da Verdade, da moralidade e da caridade universal, os altares dos seus falsos deuses.” (páginas 61-62)
NOTAS:
[1] “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, Editora Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, ver volume II, Carta 88. Os números das páginas são indicados entre parênteses ao final de cada trecho. A íntegra da Carta 88 está publicada em www.filosofiaesoterica.com sob o título “Deus Pessoal ou Lei Universal?”, e pode ser facilmente localizada no website através da Lista de Textos por Ordem Alfabética.
[2] Benedictus de Spinoza foi perseguido por suas idéias filosóficas mesmo na Holanda do século 17, conhecida por seu clima de liberdade religiosa. Sua principal obra, “Ética”, não pôde ser publicada enquanto ele viveu. Foi acusado de ateísmo e considerado um herege pela comunidade judaica. A décima-quarta proposição mencionada a seguir pelo Mestre pertence à parte I, “De Deus”, do seu famoso tratado sobre a Ética (publicado no Brasil pela Ed. Ediouro). (Nota da edição brasileira de “Cartas dos Mahatmas”)
Superstição Monoteísta Tornou-se Anacrônica
Do Monoteísmo para o Universalismo
Século 21 Pode Trazer a Fraternidade Planetária
Por toda parte e desde a mais remota antiguidade, o homem criou Deus à sua própria imagem e semelhança, e não o contrário. As ideologias monoteístas fortalecem a intolerância. Desde que elas passaram a dominar, não têm faltado tentativas de assegurar-se a posse exclusiva do mundo divino por parte de diferentes povos, cujos deuses, convenientemente, autorizam a matar e a maltratar sem dó nem piedade os “infiéis”, os “hereges” e os “descrentes”.
O deus dos cristãos seria, supostamente, “o único existente”. Esta pretensão pouco modesta justificou o desrespeito e a perseguição não só dos judeus, mas dos povos indígenas das Américas, da África e da Ásia. Na verdade o deus dos cristãos é uma cópia e uma versão romanizada do deus judaico, que, por sua vez, também é supostamente “único”, tenha sido tomado e adaptado de povos e tribos ainda mais antigos. Ao invés de agradecer aos hebreus por tomar-lhes emprestado o seu Deus e a sua escritura, os cristãos perseguiram os seguidores de Jeová durante quase dois mil anos. Tentaram eliminá-los como povo e como cultura, pela intimidação, pela assimilação forçada, e pela violência física. Talvez por isso Adolf Hitler nunca tenha sido excomungado, e nem sequer criticado pelo Papa, antes da sua derrota militar. Na área do desrespeito aos direitos humanos, Adolf Hitler e os papas tinham muito em comum.
O deus muçulmano é uma criação mais recente que a divindade monoteísta cristã. Ele também é apresentado como o único deus que existe, mas, na prática, ele é um irmão mais jovem do deus que hoje é controlado - em suas diversas versões - pelas igrejas católicas, ortodoxas, protestantes e luteranas.
A verdade é que, desde a mais remota antiguidade, cada povo tem produzido sempre os seus mitos simbólicos e divinos com base na mitologia herdada de povos mais antigos. Helena P. Blavatsky escreveu em “A Doutrina Secreta”:
“Não é o Uno Desconhecido e sempre presente Deus na Natureza, ou Natureza in abscondito, que é rejeitado, mas o Deus do dogma humano e a sua “Palavra” humanizada. Com sua infinita presunção e seu orgulho e vaidade inerentes, o homem criou ele próprio o seu Deus com sua mão sacrílega a partir dos materiais que encontrou em sua pequena estrutura cerebral, e o impôs à humanidade como se fosse uma revelação direta do ESPAÇO uno e não revelado.” [1]
A “Carta do Grande Mestre” - também conhecida na literatura esotérica como “Carta do Chohan” - descreve o programa de ação de longo prazo do movimento teosófico. Ali podemos ler a seguinte profecia, cujo cumprimento deverá ocorrer com ajuda ativa do movimento esotérico autêntico:
“As doutrinas fundamentais de todas as religiões se comprovarão idênticas em seu significado esotérico, uma vez que sejam desagrilhoadas e libertadas do peso morto representado pelas interpretações dogmáticas, dos nomes pessoais, das concepções antropomórficas e dos sacerdotes assalariados. Osíris, Krishna, Buda e Cristo serão apresentados como nomes diferentes de uma mesma estrada real para a bem-aventurança final, o Nirvana.”
E a carta do Chohan prossegue:
“O Cristianismo místico, isto é, aquele Cristianismo que ensina a autolibertação através do nosso próprio sétimo princípio - o Para-Atma (Augoeides) libertado, chamado por alguns de Cristo, por outros, de Buda, e equivalente à regeneração ou renascimento em espírito - será visto como exatamente a mesma verdade do Nirvana do Budismo. Todos nós temos de nos livrar de nosso próprio Ego, o ser ilusório e aparente, a fim de reconhecer nosso verdadeiro ser em uma vida divina transcendental. Mas, se não formos egoístas, devemos esforçar-nos e fazer com que outras pessoas vejam essa verdade, e reconheçam a realidade desse ser transcendental, o Buda, Cristo ou Deus de cada pregador. Esta é a razão por que mesmo o Budismo exotérico é o caminho mais seguro para conduzir os homens em direção à única verdade esotérica. Do modo como se encontra o mundo agora, seja cristão, muçulmano ou pagão, a justiça é desconsiderada, enquanto a honra e a piedade são atiradas ao vento.”
Mais adiante, o documento afirma:
“O mundo em geral, e especialmente a cristandade, abandonado por dois mil anos ao regime de um Deus pessoal, bem como a seus sistemas políticos e sociais baseados nessa idéia, provou agora ser um fracasso.” [2]
De fato, as religiões supersticiosas não produziram ética, nem paz, nem justiça social. Tampouco estabeleceram um convívio equilibrado com o meio ambiente natural. Elas deixaram de servir à evolução humana, e algo melhor do que elas está surgindo agora, gradualmente. O processo de nascimento da visão pós-dogmática e universalista do mundo deverá acelerar-se nos séculos 21 e 22.
NOTAS:
[1] “A Doutrina Secreta”, H.P. Blavatsky, Ed. Pensamento, edição em seis volumes, ver volume I, p. 77. Na edição original, “The Secret Doctrine”, H. P. Blavatsky, Theosophy Co., Los Angeles, 1982, volume I, p. 9.
[2] O texto “A Carta do Grande Mestre” pode ser localizado através da “Lista de Textos por Ordem Alfabética”, no website www.filosofiaesoterica.com. Para localizar o documento através da Lista de Textos por Autor, busque-se como autor “Um Mahatma dos Himalaias”.
A Dimensão Sutil da Crença em Deus
Espíritos Anti-Evolutivos Animam as Crenças Religiosas Dogmáticas
A crença popular no Deus pessoal, vingativo, rancoroso e temível que é imaginado pelas igrejas e religiões convencionais constitui uma causa desnecessária de sofrimento humano, segundo alerta a Carta 88 das “Cartas dos Mahatmas”.
A julgar pelas ações dos seus sacerdotes, este deus justifica mentir, matar e oprimir, sempre que tais crimes sejam feitos - pelo menos nominalmente - para maior glória dele próprio.
No entanto, isso não é tudo. Não basta perceber apenas este mecanismo da credulidade dos povos. Um documento incluído em “Cartas dos Mahatmas” mostra um aspecto mais sutil, e amplamente desconhecido, do processo da crença em deus. Trata-se da Carta número 30, no volume I, que inclui uma mensagem colocada no papel por H.P. Blavatsky, sob ditado do mestre dela.
O texto ditado revela que os deuses das religiões dogmáticas são de fato energias sutis animadas por espíritos planetários anti-evolutivos, cuja função cármica é evitar que a Vitória da Sabedoria Universal no coração humano ocorra de modo prematuro. O Mestre designa tais espíritos planetários atrasados pelo nome de Ma-Mo Chohans.
Na mesma Carta 30, o Mahatma explica por que motivo um Raja-Iogue não pode ajudar em sua caminhada a quem crê em superstições como “Deus” e “Deuses” no sentido dogmático. Tal crença destrói as possibilidades de uma afinidade magnética, porque fecha a aura do indivíduo para a expansão de consciência que constitui a substância do caminho espiritual.
Diz a Carta 30:
“A fé em Deuses ou em Deus e outras superstições atraem milhões de influências alheias, entidades vivas e poderosos agentes para perto das pessoas, e nos veríamos obrigados a usar algo mais que o exercício comum de poder para afastá-los. Nós decidimos não fazê-lo. Não consideramos necessário nem proveitoso perder o nosso tempo travando uma guerra com planetários [1] atrasados que se deliciam personificando deuses e, às vezes, personagens famosos que viveram na terra. Existem Dhyan-Chohans, e 'Chohans das Trevas', não o que eles chamam de diabos, mas 'Inteligências' imperfeitas que nunca nasceram nesta ou em qualquer outra terra ou esfera, tanto quanto os 'Dhyan-Chohans', e que nunca farão parte dos 'construtores do Universo', as Inteligências Planetárias puras que presidem cada Manvantara, enquanto que os Chohans das Trevas presidem os Pralayas. Explique isso ao sr. Sinnett (EU NÃO POSSO) – diga-lhe que leia de novo o que disse a eles nas poucas coisas que expliquei ao sr. Hume, e que ele se lembre de que, assim como tudo neste universo é contraste (não posso traduzi-lo melhor) assim também a luz dos Dhyan Chohans e sua inteligência pura é contrastada pelos 'Ma-Mo Chohans' – e sua inteligência destrutiva. Esses são os deuses que hindus, cristãos, maometanos e todos os demais integrantes de religiões e seitas intolerantes fanáticas adoram; e enquanto a sua influência se fizer sentir sobre os seus devotos, não nos ocorreria a idéia de associar-nos a eles nem de opor-nos a seu trabalho, do mesmo modo como em relação aos Gorros Vermelhos [2] na terra, cujos resultados maléficos tratamos de diminuir, mas com cujo trabalho não temos direito de imiscuir-nos, enquanto eles não se interpuserem em nosso caminho.”
Depois desta mensagem ditada pelo raja-iogue, Helena Blavatsky prossegue na carta acrescentando uma explicação sua. Ela diz o seguinte (colocamos alguns termos explicativos entre colchetes, em itálico e sublinhados) :
“Aqui (...) [o Mestre] quer dizer que eles não têm o direito, nem o poder, de ir contra a natureza, ou contra aquele trabalho que foi destinado pela lei da natureza para cada tipo de seres ou coisas existentes. Os Irmãos [os Mahatmas] , por exemplo, podem (....) até certo grau reduzir o mal e aliviar o sofrimento: mas não podem destruir o mal. Do mesmo modo os Dhyan Chohans [espíritos planetários evolutivos, que trabalham pela libertação humana] não podem impedir o trabalho dos Mamo Chohans, pois a Lei destes é trevas, ignorância, destruição, etc., assim como a Lei dos primeiros é Luz, conhecimento e criação. Os Dhyans Chohans respondem a Buddh, Sabedoria Divina e Vida em conhecimento abençoado, e os Ma-mos são a corporificação na natureza de Shiva, Jeová e outros monstros inventados, que têm a ignorância como seguidora.”
Vemos assim que, de acordo com a filosofia esotérica, há de fato algo “real” que interage no plano sutil com as seitas religiosas cuja base é o dogmatismo e a crença ritualista. Este “algo” são espíritos planetários anti-evolutivos.
A tarefa da teosofia - e a filosofia ocidental clássica sempre apontou no mesmo sentido - é libertar a humanidade do pensamento supersticioso que procura perpetuar a ignorância.
NOTAS:
[1] Isto é, espíritos planetários. (N. ed. bras.)
[2] Seita asiática cujo trabalho é contrário à evolução espiritual. (N. ed. bras.)
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Dependência Teológica Destrói Autoconfiança
A Crença Como Problema Pedagógico
Um Mahatma explicou os motivos psicológicos pelos quais a crença supersticiosa em um Deus Monoteísta obstaculiza o aprendizado espiritual. Diz o Mestre:
“Um sentimento constante de dependência abjeta a uma Divindade vista como a única fonte de poder faz com que um homem perca toda autoconfiança e o impulso para a atividade e a iniciativa. Tendo começado por criar um pai e guia para si, ele se torna como um menino e permanece assim até a idade avançada, esperando ser conduzido pela mão tanto nos pequenos como nos grandes acontecimentos da vida. O ditado “Ajuda a ti mesmo e Deus te ajudará” é interpretado por ele de tal maneira que, quando um empreendimento resulta de modo vantajoso, ele credita isso apenas a si mesmo; quando é um fracasso, ele atribui isto à vontade de seu Deus. (.....) Os pecados de vocês? O maior é atribuir a Deus a tarefa de libertá-los deles. Esta não é uma piedade meritória, mas uma debilidade egoísta e indolente. Ainda que a vaidade possa sussurrar o contrário, preste atenção apenas a seu bom senso.” [1]
Ou seja, enquanto houver crença em um deus monoteísta, não pode haver uma compreensão cabal de que o principal templo é nossa própria consciência, e que a grande divindade, invisível e impessoal, é Atma, o princípio universal presente neste Templo e também fora dele. Este princípio é imparcial. Ele não manipula os fatos. Ele não faz favores, nem não pode ser comprado ou subornado com homenagens, velas acesas, elogios, missas, cultos, orações, pedidos, novenas, procissões ou promessas.
No caminho da felicidade, vale, isso sim, o ensinamento do Jesus do Novo Testamento: o que se planta, se colhe. Vale a lei do carma, e não o suposto favor pessoal de deuses monoteístas imaginários. É deste modo que a humanidade cresce. Pode ser difícil desafiar e abandonar as ilusões: mas não há outro caminho.
NOTA:
[1] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, Primeira Série, Carta 43.
Raja Ioga Propõe a Auto-Libertação
Liberdade Resulta do Exercício da Responsabilidade Cármica
A teosofia - assim como a Raja Ioga - propõe o caminho da autonomia do aprendiz. Os obstáculos que impedem a felicidade de cada indivíduo devem ser afastados do seu caminho por ele mesmo e por mérito próprio. Ele próprio criou os obstáculos, e, portanto, a tarefa de afastá-los pertence a ele. Este é o ensinamento da lei do carma.
O processo pelo qual o indivíduo humano cria sempre a cada momento as circunstâncias do seu futuro passa pelo encadeamento constante dos pensamentos entre si, através de hábitos e padrões estabelecidos. Estes hábitos, porém, estão sujeitos à alteração através da força de vontade.
Um Mestre explica como se dá o mecanismo:
“....Cada pensamento do homem, ao ser produzido, passa ao mundo interno e se torna uma entidade ativa associando-se - amalgamando-se, poderíamos dizer - com um elemental, isto é, com uma das forças semi-inteligentes dos reinos. Ele sobrevive como inteligência ativa - uma criatura gerada pela mente - por um período mais curto ou mais longo, proporcionalmente à intensidade da ação cerebral que o gerou. Desse modo um bom pensamento é perpetuado como força ativa e benéfica, um mau pensamento como demônio maléfico. Assim, o homem está constantemente ocupando sua corrente no espaço com seu próprio mundo, um mundo povoado com a prole de suas fantasias, desejos, impulsos e paixões; uma corrente que reage sobre qualquer organização sensível ou nervosa que entre em contato com ela na proporção da sua intensidade dinâmica. A isto os budistas chamam ‘Skandha’. Os hindus lhe dão o nome de ‘Carma’. O adepto produz essas formas conscientemente; os outros homens as atiram fora inconscientemente.” [1]
NOTA:
[1] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Brasília, volume II, p. 343, Primeira Carta para A.O.Hume.
Trocando Dogmas por Autoconfiança
Combinando Independência Pessoal Com Compaixão Universal
Para a teosofia original, o estudante deve combinar independência pessoal com solidariedade. Ele deve reunir em si auto-responsabilidade e compaixão universal. Nenhum mestre tem como função salvar o aprendiz dos seus próprios erros, ou das consequência dos seus erros no passado. A função do mestre é dar elementos para que o discípulo liberte a si próprio.
Nos trechos a seguir, tirados de cartas dos Mestres, vemos os princípios pedagógicos seguidos pelos instrutores autênticos:
* “... Você tem uma carta minha em que explico por que nós nunca guiamos nossos chelas (mesmo os mais avançados); nem os avisamos antecipadamente, mas deixamos que os efeitos produzidos pelas causas criadas por eles ensinem-lhes uma melhor experiência.” [1]
* “Você está pronta para fazer a sua parte no grande trabalho da filantropia? Você ofereceu-se para a Cruz Vermelha; mas, Irmã [2] , existem doenças e feridas da alma que não podem ser curadas pela arte de nenhum cirurgião. Irá auxiliar-nos a ensinar à humanidade que os doentes-da-alma devem curar-se a si próprios? Sua ação será sua resposta.” [3]
* “Todo ser humano contém dentro de si vastas potencialidades, e é dever dos adeptos rodear o possível chela com circunstâncias que o capacitarão para tomar o “caminho da direita” - se ele tiver a capacidade dentro de si. Não temos o direito de retirar a chance de um postulante, assim como não podemos guiá-lo e dirigi-lo pelo caminho correto. Na melhor das hipóteses, podemos apenas mostrar a ele - depois que seu período de provação terminou exitosamente - que se ele fizer isso irá bem; se fizer aquilo, irá mal. Mas até que ele haja passado por esse período, nós deixamos que ele trave suas batalhas do melhor modo que puder; e temos que fazer o mesmo ocasionalmente com chelas mais adiantados e iniciados, como H.P.B., uma vez que lhes é permitido trabalhar no mundo, o que todos nós evitamos mais ou menos. E além disso (.....) nós deixamos que nossos candidatos sejam tentados de mil maneiras diferentes, de modo que venha para fora a totalidade da sua natureza interna, e deixamos a esta a possibilidade de vencer de uma maneira ou de outra. (.....) Todos nós somos testados dessa maneira (.....).” [4]
Ao analisar certos erros cometidos por Helena Blavatsky, um Mestre escreve:
“De acordo com nossas regras, (....) [o Mestre de H.P.B.] não tinha permissão para proibi-la claramente de fazer tal coisa. Ela tinha que ter total e inteira liberdade de ação, a liberdade de criar causas que se transformariam com o tempo no seu carrasco, seu pelourinho público. Ele podia, no máximo, proibi-la de produzir fenômenos, e ele recorria a este último recurso tão freqüentemente quanto podia, para grande insatisfação dos amigos dela e dos teosofistas.” [5]
A independência é essencial para que haja um real aprendizado, segundo explica um Mahatma:
“Você está completamente desinformado sobre o nosso sistema, e se eu pudesse torná-lo claro para você, haveria dez chances contra uma de que os seus “melhores sentimentos” - os sentimentos de um europeu - ficariam perturbados, ou algo pior, com uma disciplina tão “chocante”. O fato é que, até a última e suprema iniciação, todo chela - (e mesmo alguns adeptos) - é deixado com seus recursos e opinião próprios. Temos que enfrentar nossas próprias batalhas, e o adágio familiar - “o adepto faz a si mesmo, ninguém o faz” - é verdadeiro literalmente. Já que cada um de nós é o criador e produtor das causas que levam a este ou àquele resultado, temos que colher apenas aquilo que semeamos. Nossos chelas são ajudados apenas quando são inocentes das causas que os colocaram em dificuldades; quando tais causas são geradas por influências alheias, externas. A vida e a luta pelo adeptado seriam demasiado fáceis, se todos tivéssemos limpadores atrás de nós varrendo para longe os efeitos que geramos através da nossa imprudência e presunção. (.....) Assim, passo a passo, e depois de uma série de punições, o chela aprende pela amarga experiência a suprimir e guiar seus impulsos; ele perde sua imprudência, sua auto-suficiência, e nunca cai nos mesmos erros.” [6]
No discipulado, o aprendiz deve optar entre dois caminhos:
“Um chela em provação tem permissão para pensar e fazer o que quiser. Ele é advertido e informado previamente: ‘Você será tentado e enganado pelas aparências; dois caminhos se abrirão diante de você, os dois levando à meta que você está tentando alcançar; um, fácil, e este o levará mais rapidamente ao cumprimento das ordens que você pode receber; o outro, mais árduo, mais longo; um caminho cheio de pedras e espinhos que o farão pisar em falso mais de uma vez; e no final do qual você pode, talvez, chegar a um fracasso, depois de tudo, e ser incapaz de executar as ordens dadas para um pequeno trabalho particular - mas, enquanto este caminho fará com que as dificuldades enfrentadas por você devido a ele sejam todas contabilizadas a seu favor a longo prazo, o outro, o caminho fácil, só pode oferecer a você uma gratificação momentânea, uma realização fácil da tarefa’.” [7]
O princípio pedagógico e filosófico da “autonomia do aprendiz” - para citar a expressão criada pelo educador brasileiro Paulo Freire - pode demorar ainda algum tempo até ser absorvido na prática e substituir, finalmente, as crenças dogmáticas. Ele deve ser adaptado e aplicado gradualmente a cada situação humana. Todos os seres são aprendizes, e cada momento da vida traz uma ou mais lições, para quem tem olhos para ver.
Quando o aprendizado consciente substituir finalmente os dogmas cegos, três axiomas fundamentais ficarão claros para o conjunto da humanidade:
I - “A alma do homem é imortal e o seu futuro é o de algo cujo crescimento e esplendor não têm limites”.
II- “O princípio que dá a vida mora em nós e fora de nós; é imortal e eternamente benéfico; não é ouvido, nem visto, nem apreendido pelo olfato, mas pode ser percebido pelo homem desejoso de o perceber”.
III - “Cada homem é o seu absoluto legislador, o dispensador da glória ou das trevas para si próprio; é o decretador de sua vida, recompensa e punição.” [8]
NOTAS:
[1] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Carta 95, vol. II, p. 151
[2] Na edição brasileira, vemos a palavra “Filha”. Porém vale o original em inglês, em que temos “Irmã”.
[3] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Carta 72, segunda série, p. 248.
[4] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 92, vol. II, pp. 97-98.
[5] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 92, vol. II, pp. 92-93.
[6] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 92, vol. II, p. 90-91.
[7] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 74, vol. I. p. 343.
[8] “Luz no Caminho”, M. Collins, Ed. Pensamento, SP, p. 27.
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